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Zuenir e Gaspari

Um grande teste

 

Zuenir Ventura

 

E vai alguém fazer previsão política neste país! Você sai para uma viagem por Minas e Espírito Santo, fica prestando atenção em outras coisas, e 15 dias depois, quando volta, está tudo mudado: o PT deu um tiro no pé (no pé?), a oposição deu uma virada e a campanha eleitoral, que muitos achavam sem emoção, chocha, pegou fogo. Tom tinha razão, o Brasil não é para principiantes. O tal do povo, por exemplo, que todo político pensa que conhece, gosta de enganar.

Ao governo, ofereceu a ilusão de uma vitória fácil, e Lula acabou traído pela própria soberba e presunção, ele que já não pensava no segundo turno, mas no segundo governo.

Também a oposição foi enganada. Antes do dossiê, quando uma reversão parecia impossível, ela culpava o eleitor “mal informado e apático, incapaz de reagir”. Li na internet inúmeras mensagens de oposicionistas furiosos, querendo trocar de povo.

Hoje devem ter descoberto que povo é bom, desde que concorde com a gente. Um dos piores efeitos colaterais das lambanças do governo Lula foi banalizar o discurso ético e baratear a indignação.

O que mais se viu na mídia nas últimas semanas foi gente “indignada” — candidatos, jornalistas e até caciques criados na ditadura — fazendo comícios contra a corrupção, como se ela fosse inédita e precisasse de adjetivos para qualificá-la. Pareciam virgens tomando conta de um bordel em que, na verdade, o cinismo do governo disputa com a hipocrisia da oposição.

Essas eleições ensinaram muito sobre o eleitor, que costuma ser tratado como entidade uniforme, e não como um ser tão variado quanto as pessoas de que é feito. Como substantivo coletivo de cada um de nós, ele é capaz do melhor e do pior. Pode derrotar Severino, Quércia e Newtão, mas também eleger Maluf, Collor, Clodovil; expulsar da Câmara os sanguessugas e aceitar de volta os mensaleiros.

Não entendo de política, e sempre fui um inocente inútil. Votei pelo segundo turno porque acho que muita coisa ainda precisa ser passada a limpo.

Não me iludo, porém, com o tom leve e civilizado das primeiras entrevistas dos dois candidatos. As próximas semanas serão o grande teste para a convivência democrática. Como se comportará o país rachado ao meio? Acho que vai ser um pega-pra-capar.

            Aquele clima passional do primeiro turno, em que já se notava um perigoso ranço de preconceito de classe, pode se exacerbar. Os estragos nas relações políticas serão tantos que, em vez da “concertação” já proposta, será preciso uma “consertação”, com S. Se é que vai ter conserto. No entanto, quando olho para o novo cenário e vejo nomes como José Serra, Aécio Neves, Jaques Wagner, Paulo Hartung, acredito que sim, qualquer que seja o resultado. Eles são capazes de evitar o pior, por interesse político e correção moral.

Escrito por Antonio Alves às 14h00
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A marcha dos palhaços

 

ELIO GASPARI

 

Na segunda-feira, com aquelas olheiras que só a adversidade eleitoral produz, Nosso Guia candidatouse ao lugar de coordenador da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência da República. Fez isso quando tratou do Dossiê Vedoin e disse o seguinte: “Eu quero saber quem arquitetou essa obra de engenharia para atirar no próprio pé.” Quer? Pergunte a Ricardo Berzoini e a Aloizio Mercadante. Eles podem ajudar.

Ao tratar de um crime como curiosidade, Lula assumiu a condição de padrinho dos malfeitores petistas, aloprados e trambiqueiros. Padrinho no sentido da figura de Dom Corleone/Marlon Brando.

Não há nenhuma prova, indício ou pista de que haja bico tucano na construção do papelório. Há apenas um raciocínio lógico: se os tucanos foram favorecidos pelo episódio, há dedo deles na produção.

Coisa assim: a invasão da Rússia por Hitler permitiu que Stalin consolidasse a sua tirania, donde, Hitler foi uma jogada de Stalin.

Admita-se que o raciocínio de Lula está certo. No início de setembro, um tucano teve uma idéia: vamos pedir ao Vedoin que faça um dossiê contra o Serra, ele o vende ao PT, nós flagramos os compradores, fotografamos o ervanário e botamos o escândalo na imprensa.

Um petista aloprado come a isca, compra-se o caso, acerta-se a publicação da denúncia, combina-se o pagamento e vai-se a um hotel buscar mais uns docinhos. Nisso reserva-se R$ 1,7 milhão, em grana viva, para os chantagistas.

Se isso fosse verdade, o presidente de honra do PT teria razão ao chiar. O da República não é pago para tumultuar inquéritos. Os petistas que negociaram com um delinqüente cometeram uma contravenção ao trocar denúncia por dinheiro e um crime ao remunerar bandidos.

Transgrediram as leis da República.

Respeitaram apenas a regra do silêncio de Dom Corleone.

Diante de um crime, o presidente da República não pode agir como advogado de porta de xadrez. (Será que em 1954 os capangas de Gregório Fortunato foram pagos por Carlos Lacerda para atirar no major Rubens Vaz?) Em São Paulo e no Rio houve zonas eleitorais onde madames grisalhas, elegantes e gentis distribuíam narizes de palhaço. (Senhoras parecidas com aquelas que fizeram a Marcha da Família em 1964.) O sujeito ganhava uma bolinha vermelha e ia para a seção eleitoral. No comércio, a bolota de plástico custa R$ 2,50 e a de esponja sai por R$ 3, crime eleitoral explícito, mas isso fica para depois. Contra quem esse feliz palhaço protesta? Paulo Maluf? João Paulo Cunha? Clodovil? Lula? O calor que o senador Eduardo Suplicy tomou de Guilherme Afif Domingos mostra que se quebrou a associação da decência ao PT. Se são todos iguais, Lula é igual a Maluf e Fernando Collor. Exagero? Ouça-se Maluf: “Tenho plena consciência de que o presidente Lula é um homem limpo e correto.” E Lula: “Collor poderá, se quiser, fazer um trabalho excepcional no Senado.” Lula e o PT associaram-se a práticas indecentes. Fizeram isso porque quiseram. A mistura custou o resultado de domingo. A soberba poderá custar a seguinte.

A Justiça Eleitoral precisa estar cega para permitir a distribuição de prendas na área onde é proibido repassar santinhos de candidatos.

Mesmo assim, o palhaço sempre poderá votar com um nariz que trouxe de casa.

Ou Lula pára de dizer monstruosidades, ou verá a marcha dos palhaços .



Escrito por Antonio Alves às 13h58
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