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Descentralidades

De fato, não me animo muito a debater “a forma como os homens se organizam para produzir as condições de sua subsistência”. Também não tenho mais ânimo para defender outra forma de organização, embora reconheça que as ações coletivas –políticas ou econômicas- baseadas na centralidade do trabalho são menos danosas, em alguns aspectos da vida social, que aquelas baseadas na centralidade do capital, ou do poder político (concordo, por exemplo, com a crítica de Letícia ao surgimento de um “novo” partido com o mesmo foco eleitoral dos “velhos” partidos).

Mas no que se refere às “ondas largas” do processo civilizatório e às mudanças profundas no relacionamento com o que convencionamos chamar de natureza, ainda acho que a “centralidade do trabalho” e o racionalismo levam aos becos sem saída do antropocentrismo. Não creio que seja possível um capitalismo ecológico, mas tampouco vejo vantagem em um socialismo poluidor. Da mesma forma, não vejo muita vantagem em alargar os limites conceituais do século XX retomando princípios do século XIX. Um dia desses li um texto questionando de modo convincente o hábito (que confesso ainda manter) de comer carne de boi e, assim, ajudar a devastar a Amazônia. Para compreender essa questão, temos que rever escolhas muito antigas na caminhada das civilizações e entender como essas escolhas são refeitas ou desfeitas no mundo de hoje. Mudar padrões alimentares, relações de gênero, preconceitos raciais etc. etc., é articular ações coletivas que tocam camadas profundas da sociedade. Mas os movimentos que se articulam em torno desses temas são considerados periféricos e superficiais porque não estão baseados na “centralidade do trabalho” nem organizam “os que vivem do trabalho”. São também considerados pouco racionais, coisa de místicos ou hippies, uma espécie de concessão ao irracionalismo.

Que fique bem entendido: amo o trabalho e respeito a razão, mas não posso ficar triste por eles terem perdido o trono da centralidade. Não lamento que toda centralidade esteja, hoje, ameaçada. Aos que se sentem inseguros navegando no mar das incertezas, recomendo um retorno a Hermes Trimegistos e os gnósticos, que descreviam o universo como um círculo cujo centro está em todo lugar e a circunferência em lugar nenhum.



Escrito por Antonio Alves às 01h38
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