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Mário responde:

Depois de desdobrar um amplo conjunto de temas, Toinho concluiu seu argumento apoiando-se em um ponto que, a meu juízo, é central da questão do trabalho (como propus em minha intervenção):

Certamente a forma como pré-idealizamos nosso trabalho está na origem de nossa atitude de voltar-se contra ela. Certamente, a necessidade da sobrevivência, embutida no ‘metabolismo’ humano como um secreto cordão umbilical que nos liga à Mãe Terra, será nossa via de retorno e reconciliação. Mas pensar e repensar não vai nos levar muito longe nesse caminho. Em algum ponto, a razão, cansada, subirá à carroça do coração na condição de passageira e, no melhor trecho da viagem, certamente estará dormindo.”

 

Racionalidades

 

Você capta um aspecto central da minha intervenção – a racionalidade da ação humana – mas, não sei por quê, deixa escapar o outro ponto que destaquei – o relativo às formas sociais. Nos mantendo, como você fez, apenas no primeiro aspecto, de fato, estaremos longe de por um encaminhamento da questão – estaremos mesmo em rota da destruição pura e simples. Cabe lembrar que numa passagem do comentário IV, a propósito do texto Passou do ponto?, Letícia já chamara a atenção para o fato de “que não é possível avançar nessa direção sem uma profunda crítica do passado e sem a retomada da centralidade do trabalho.”(Letícia) O sentido da crítica deve voltar-se para a realidade que se articula pela forma como os homens se organizam para produzir as condições de sua subsistência.

É a idéia da racionalidade que nos permite compreender o andamento da História como resultados da construção do mundo dos homens, compreensão da realidade que nos causa tanta inquietação – mal-estar, parafraseando Freud – como resultado e não como uma fatalidade. Por outro lado, nos leva, também, como proposto pela Letícia, a "retomar a centralidade do trabalho" não apenas num movimento teórico, mas reorientando a ação social e política no sentido “dos que vivem do trabalho”. Aliás, Letícia, ao contrário de muito comentarista da nossa realidade que se perdem num vai e vai dentro dos limites do século XX, retorna aos rumos que os movimentos sociais tomam ainda no século XIX nos chamando a atenção para a necessidade de termos em vista as “ondas largas” como referências fundamentais na construção da crítica.

 

PS: Na próxima semana tomarei a trilha dos Ipês.



Escrito por Antonio Alves às 18h20
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idéias

Aí já cabe uma referência ao que destaca o homem do conjunto dos seres vivos ou dos demais animais: o fato de sua ação laboral ser pré-idealizada. Ou seja, a ação do homem tem dois momentos fundamentais: um correspondente a uma produção ideal outro relativo a efetivação material de suas idéias. O que se produz é, antes, produzido idealmente. (Mário Lima)

 

 

Despensamentos

 

Quando pensamos numa atividade pré-idealizada pressupomos que esta idealização é feita com raciocínios conscientes, pensamentos, planos, projeções mentais voluntárias e mais ou menos controláveis. Primeiro o homem pensa, depois age. Hummm... não sei. Desconfio que a maioria dos pensamentos sirva para justificar ações já realizadas ou que, ao menos, surjam no exato momento da ação. Assim, ação e pensamento surgem na mesma dimensão, do ego semi-consciente, oriundos de uma fonte única, oculta, semi-inconsciente. Se o pensamento vem antes da ação, o que vem antes do pensamento? (“Dios mueve el jugador, éste, la pieza/ Que dios detrás de dios la trama empieza...?” – Borges)

            Os instrumentos conceituais das chamadas Ciências Sociais começaram a ser elaborados antes que Freud colocasse em circulação, no Ocidente, a noção do inconsciente como fonte dos nossos atos, pensamentos, sentimentos e toda nossa identidade cotidiana. Mais tarde, as sociologias, excessivamente marcadas pela estatística e balizadas por um historicismo eurocêntrico, desenvolveram-se como edifícios que permaneceram quase intactos, nos campi universitários, resistindo às investidas de pensadores que flertaram com o inconsciente mas não assumiram, nem poderiam, o irracional.

            As noções de seqüência e etapa, causa e efeito, ideal e material etc. estabeleceram-se na base do pensamento ocidental quase como um desenvolvimento motor básico. Sem essas noções, o pensador não escreve, assim como uma criança não leva a colher à boca.

            Em tudo ressalta o antropocentrismo, mesmo quando se fala da indissociabilidade entre antropos e natura. De fato, temos limites em sair da casca humana. Por exemplo, consideremos a seguinte questão: as formigas pré-idealizam seu trabalho? É simplesmente impossível dar uma resposta “científica”. Na verdade, não sabemos. Parece evidente que as formigas não pensam, apenas obedecem a uma programação instintiva. Puxa, mas quão elaborado é esse tal de instinto, para gerar atividades tão organizadas e complexas como a de formigas, abelhas, golfinhos, chimpanzés e outras maravilhas que as ciências menos humanas não cansam de revelar... Ainda assim, dizemos: só o homem pré-idealiza sua ação.

            Deveríamos, talvez, nos deter um pouco nessa idéia de que o pensamento, a forma humana de pré-idealização, que o homem pensa ser a única possível, é algo que o distingue da natureza com superioridade. Talvez o distinga, sim, mas como uma dificuldade. O caboclo vê o passarinho fazendo sua casa num galho mais alto, conclui que vai haver uma grande enchente e muda também o local de sua casa. O passarinho vive sem o homem. Este, sem o passarinho, teria sua casa e seus filhotes levados pela água. O pensamento é, então, um tosco e rudimentar instrumento para viver na natureza, mais eficiente para afastar-se dela e destruí-la.

            Certamente devemos pensar (repensar, como costumamos dizer) nossas relações com a natureza. Certamente a forma como pré-idealizamos nosso trabalho está na origem de nossa atitude de voltar-se contra ela. Certamente, a necessidade da sobrevivência, embutida no “metabolismo” humano como um secreto cordão umbilical que nos liga à Mãe Terra, será nossa via de retorno e reconciliação. Mas pensar e repensar não vai nos levar muito longe nesse caminho. Em algum ponto, a razão, cansada, subirá à carroça do coração na condição de passageira e, no melhor trecho da viagem, certamente estará dormindo.



Escrito por Antonio Alves às 19h43
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