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Mário Lima diz:

Caro Toinho

 

Inicialmente, devo um pedido de desculpas pela forma dessa minha última intervenção. Essa forma direta, simplesmente negando seu ponto de partida, não é correta. Minha intenção, entretanto, tinha dois objetivos: o primeiro, fazer-me presente na conversa entre você e a Letícia. Atropelos, nesses dias finais de semestre, deixam-me pouco tempo; em segundo lugar, queria impor-me a necessidade de voltar ao assunto, o que faço agora.

O seu ponto de partida peca pelo fato de ser sempre verdadeiro. Afinal, a marca da ação laboral está por todas as partes do mundo dos homens.

Há, no entanto, outra possibilidade da qual partem muitos dos que refletiram sobre o tema. O ponto de partida é, de fato, uma noção do trabalho, compreendido como o "metabolismo" entre o homem e a natureza. Ou seja, o ponto de partida é a construção da sobrevivência mesma. Aí já cabe uma referência ao que destaca o homem do conjunto dos seres vivos ou dos demais animais: o fato de sua ação laboral ser pré-idealizada. Ou seja, a ação do homem tem dois momentos fundamentais: um correspondente a uma produção ideal outro relativo a efetivação material de suas idéias. O que se produz é, antes, produzido idealmente.

O ponto central da posição da Letícia está no fato de que os homens se organizam para exercer a ação laboral – metabolismo. Historicamente, essa organização assume formas diferenciadas. Nem sempre o trabalho foi “trabalho assalariado”, nem os meios de produção formaram "capital". Nesse sentido, o da formação social, o da organização das sociedades, é que o trabalho se põe como categoria fundante. Como a Letícia já destacou, evidente que o social não se reduz ao trabalho como trabalho. Temos de considerar a História, o avanço das formas sociais e o aprofundamento da complexidade de suas relações.

Há, no entanto, que lembrar a ineliminável relação que o mundo dos homens mantém com essa base e essa com a natureza. Nisso, a meu juízo, estaria um ponto de partida para aprofundarmos uma discussão sobre a questão ambiental.



Escrito por Antonio Alves às 19h26
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Letícia Mamed diz:

“(...) afirmar o caráter fundante do trabalho não significa, porém, para a visão marxiana, desconhecer a existência de inúmeras outras dimensões que também fazem parte deste ser. A complexificação da sociedade, cuja origem está na capacidade do trabalho de produzir em escala cada vez mais ampliada, levou ao surgimento de problemas que já não poderiam ser resolvidos no âmbito do próprio trabalho. Daí a emergência de outras dimensões, com uma natureza e uma legalidade próprias, capazes de permitir à humanidade fazer frente a esses novos desafios. Assim, temos a política, o direito, a arte, a religião, a ciência, a filosofia, a educação, etc. Uma coisa, porém, fica clara: só o trabalho tem um caráter fundante. Todas as outras dimensões se originam a partir dele. Portanto, todas elas guardam uma dependência ontológica em relação ao trabalho, mas, ao mesmo tempo, por força da própria realidade, uma autonomia relativa.”

 

Quero discutir isso. O que dá ao trabalho esse caráter “fundante”? O fato de ele produzir (objetos, mercadorias, relações etc.). Todas as outras coisas são produzidas, por isso ontologicamente dependentes. Será?

Bem, primeiro quero reconhecer a presença fundamental do trabalho na constituição de tudo. Religião, por exemplo. O ritual religioso, além de muitas vezes ser denominado “trabalho espiritual”, dá muito trabalho material: lavar a toalha, limpar o templo, ligar a luz (e pagar a conta!)... além de uma enorme quantidade de coisas para carregar, empurrar, puxar, conferir, reformar, abrir, fechar etc. As igrejas mais ricas e estruturadas até pagam gente para fazer todo esse trabalho.

Outro exemplo, a Arte. Pintar um quadro pode ser considerado uma “atividade lúdica” pra quem não vive disso e pinta quando está enfastiado, por brincadeira. Os pintores sabem o esforço, a atenção, o cuidado. Manejo adequado do material, conhecimentos técnicos, experimentação e repetição, esforço, há muito trabalho em Arte.

Em tudo há trabalho. E é a presença do trabalho (labor) que confere a existência ativa e colaborativa (co-labor-ativa), portanto social, de todas as outras coisas. Confere, assim, reprodutibilidade, ou seja, a noção de que se fizermos novamente o mesmo esforço obteremos o mesmo resultado. Não consigo achar sentido mais amplo para a palavra “fábrica”, como queria Letícia.

Mas e daí? O que temos, depois de tanto trabalho, é um amontoado de coisas e relações sem sentido. O que dá sentido às coisas? O que dá sentido ao próprio trabalho? Quem batiza o trabalho com esse nome? E mais: como distinguir o trabalho do não-trabalho? Sim, porque encarado dessa forma tão ampla, trabalho é qualquer atividade ou esforço, individual ou coletivo, remunerado ou voluntário. E dizer que toda atividade humana é “fundante” é dizer quase nada.

Primeiro, é preciso ir mais fundo: o trabalho é fundante não porque produz coisas e relações, mas porque é parte constitutiva da natureza. O universo inteiro trabalha, o trabalho humano, assim como o das formigas, é apenas parte de um movimento incessante das forças que compõem o Todo. Os aspectos simbólicos desse trabalho são inúmeros e se distribuem por todo o reino da linguagem, desde o inconsciente profundo e coletivo até a letra dos regulamentos e avisos pregados nas portas. Uma parte bem pequena desse mar de significados é recortada pela Ciência, um pedacinho ainda menor é selecionado pelos cientistas de orientação economicista, que carimbam o trabalho com o título de “meio de produção”. Em algum lugar, o velho Marx disse que as relações econômicas são relações humanas disfarçadas de relações econômicas. A maioria acha o contrário, que as relações humanas são, na verdade, relações econômicas disfarçadas de relações humanas. Mas vou mergulhar mais fundo: o homem e as relações humanas são, na verdade, a natureza e as relações naturais disfarçadas de homem e relações humanas.

Também é preciso ser mais amplo: o trabalho não é a única atividade fundante. A linguagem é até mais. O amor, muitíssimo mais. O pensamento, a festa, a arte... Cada aspecto do Ser funda relações e redes de significados entre pessoas e coisas. A natureza se expressa como atividade humana de muitas formas, brota em toda parte, o tempo inteiro. Tudo é ontologicamente ligado a tudo. O trabalho é um jogador importante, não é o time inteiro, não é o único que produz e nem é aquele que dá nome e significado a todos, nem a si mesmo.

Ah, essa conversa me agrada. Pena que tenho tempo e espaço curtos. Depois continuo.



Escrito por Antonio Alves às 15h38
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