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Demorei a comentar os comentários da Letícia. Faço-o agora, ainda apressadamente, para não perder o assunto. Que é longo e profundo, mas vamos também é quente e, por isso, vamos comendo pelas beiradas.

Sim, as críticas são superficiais e apressadas. Mais que isso: são interessadas, ou seja, revelam (procurando disfarçar) vontades, estratégias e táticas de quem está no meio da disputa, procurando pescar em suas águas turvas. Também acho que houve um deslocamento da centralidade, do trabalho para a política. Mas, veja: a domesticação da esquerda, iniciada com a social-democracia, corresponde à prosperidade dos países colonialistas e dos “benefícios” que puderam dar aos seus operários. A formação da “aristocracia operária”, assim como da burocracia dos países do Leste, está na base desse deslocamento.

Agora a coisa ficou ainda mais complexa, porque a fábrica (mesmo que tomemos a palavra no sentido mais amplo que pudermos conseguir) não é mais o lugar onde se produz a riqueza, assim como o parlamento não é mais o lugar onde se trava a luta por ela. Sim, ainda há fábricas, mas são cada vez menos importantes nas sociedades pós-industriais que vão se formando. Ainda há parlamentos, mas o lugar da disputa política também é mais amplo e espalhado, e uma emissora de TV costuma ser mais poderosa que um partido político.

Em resumo, penso que toda centralidade, hoje, está ameaçada. E não lamento isso: as centralidades costumam ser ilusões produzidas pelos agentes ideológicos que se colocam “no centro” e ordenam ao mundo que circule ao seu redor. O trabalho é, certamente, uma atividade tão importante que merece alguma centralidade. Mas tem tantas outras coisas igualmente importantes... Em matéria de política, acho interessante, por exemplo, que existam partidos “verdes”, com focos temáticos variados. Voltarmos ao velho esquematismo da esquerda, contradição principal versus contradições secundárias, daremos com a mesma cara no mesmo muro.



Escrito por Antonio Alves às 19h39
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