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cartas ácidas
Até o
osso
Flávio
Aguiar
A certa altura desta crise o presidente Lula disse que, se fosse preciso, se
cortaria na própria carne. De certo modo isso já está acontecendo, com as
mudanças na direção do partido e em certas atitudes, como a de se livrar da
luxenta sede em Brasília. Mas só isso não é suficiente. Vai ser necessário
cortar até o osso.
Não
adianta substituir este ou aquele dirigente, A deixar o partido, B ser expulso e
C perder força no comando. É preciso repactuar internamente o partido,
repactuá-lo com a sua história, e repactuar o partido com o Brasil.
Também
não se trata apenas de fazer uma troca da guarda, substituindo uma facção por
outra. É hora de todas as facções, correntes, tendências e independentes se
darem conta do tamanho do problema que foi acalentado e afinal explodiu,
implodindo o brio da militância.
O
partido – e é o partido, não apenas a sua atual direção ou a passada - não deve
explicações apenas a mim ou à leitora ou o leitor que estão me lendo agora. O
partido deve uma satisfação à gente como o professor Antonio Candido, o
professor Ab’Saber, com Zilah Abramo e outros mais de igual quilate. O partido
deve explicações ao catador de papel que atravessou Porto Alegre a pé, de
bandeira em punho, com a mulher Jorçalda, para votar no “seu” partido, e partido
da liberdade e da bandeira vermelha. O partido está diante da história
brasileira e da esquerda mundial. O partido deve explicações à memória de gente
como Graciliano Ramos e Erico Verissimo, aos marinheiros da Revolta da Chibata,
aos sertanejos brasileiros de todos os massacres da nossa história, a Zumbi, a
Anita Garibaldi e quantos e quantas mais.
O
partido tem de dar uma satisfação ao povo brasileiro, aos povos
latino-americanos, a todos os povos do mundo que ousaram erguer um pouco mais a
cabeça e a espinha quando tiveram notícia de que a esquerda tinha ganho a
presidência da República no Brasil. É a bravura desta gente que este
emporcalhamento do Partido dos Trabalhadores está desossando, está
desarticulando.
Escrito por Antonio Alves às 01h04
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continuando
Pelo seu tamanho e por sua história o Brasil encarnou um perfil original da civilização e tem um destino a cumprir. A França teve sua Revolução, os Estados Unidos a sua Declaração da Independência, outros países tiveram seus outros momentos, até mesmo o sofrido e esmagado Haiti pelos imperialismos teve seu momento extraordinário de sediar a única revolta de escravos que já venceu seus opressores na história humana.
O Brasil tem movimentos sociais organizadíssimos; o MST é exemplo para o mundo inteiro; a CUT também é. O sindicalismo brasileiro está mais perto de suas raízes de base do que o da maioria dos países social-democratas, sem falar na desarticulação avassaladora que caiu sobre a extinta União Soviética e agora devasta também a China. O Brasil liderou experiências extraordinárias como a do orçamento participativo e por isso se tornou a sede do Fórum Social Mundial, reabrindo o futuro da humanidade e tornando-se o portal do século XXI.
Para os brasileiros que embarcaram nesta história dá orgulho andar pelo mundo e exibir o passaporte, tão admirado quanto aquele que Maiacovski mostrou no trem francês e que para espanto do fiscal era vermelho. Pois é este orgulho que o que aconteceu no Partido dos Trabalhadores, no seu coração, está trincando e achincalhando. E o que nos achincalha mais é ver o sorriso condescendente ou o riso de escárnio dos nossos inimigos no Parlamento ou fora dele, sobretudo fora dele, é ver gente escrevendo pela imprensa que o Brasil, no fundo, não tem jeito mesmo, que inglês sim é que pode se orgulhar do seu país.
O que é necessário, portanto, é reverter uma concepção política que, na prática, desistoricizou o Partido, cortou-o de sua memória, concebeu-o como um mero trampolim para o poder institucional e assim abriu espaço para quem quis vê-lo apenas como uma vereda de acesso às mordomias e favores anexos a este poder.
Há questões morais a resolver? Há. Há investigações e auditorias a fazer? Há. Há responsabilidades a cobrar? Há. Há provas a exigir? Há. Deve-se garantir o direito de defesa? Deve-se. Devemos nos tornar um partido estalinista, fuzilar primeiro e refazer a foto depois, plantando vasos onde tinha gente? Não, não devemos. A comissão de ética deve se reunir? Deve. Vai ter que expulsar gente? Vai, ou pelo menos convidar gente a se retirar, depois de examinar todas as comprovações, é claro. Vai ter de parar com isso de filiar indiscriminadamente? Vai. Vai ter de parar de considerar que o recém aliado de hoje no Parlamento é mais importante e merece mais tapinhas nas costas do que os militantes de décadas? Vai. Mas só isso não chega, porque isso é apenas a carne, e precisa chegar até o osso.
E o osso é de concepção política, o osso é conceitual, não vai adiantar apenas trocar nomes na direção (o que precisava ser feito como medida emergencial) nem mesmo vai adiantar apenas trocar de facção no comando do partido se a facção “ascendente” for se comportar apenas como facção.
É necessário que a nova direção partidária tenha consciência do seu compromisso com a história do Partido como um todo, do seu compromisso com a militância, com a memória dos mais velhos e o futuro da juventude, com a esquerda, com o Brasil, com as lutas seculares pela justiça e pela liberdade.
Sem isso, esquece: estaremos mortos pelo menos por uma geração.
Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.
Escrito por Antonio Alves às 00h59
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mais paulada
O MITO DO PARAÍSO PERDIDO
CÉSAR BENJAMIN ESPECIAL PARA A FOLHA
"Até
mesmo a fraude, para que seja eficaz, tem de trabalhar com a esperança,
perversamente estimulada. (...) A esperança fraudulenta é uma das maiores
malfeitoras da humanidade." Ernst Bloch, em "O Princípio
Esperança".
Com o descalabro do governo Lula,
multiplicam-se as pessoas que relembram, saudosas, o velho PT e pregam um
retorno ao partido que supostamente existia antes de chegar ao poder. Mais uma
vez reaparece a idéia, tão recorrente, de que houve um estado original, mais ou
menos puro, que deve ser recuperado. Em outros contextos, quem ainda não ouviu
histórias sobre a existência de um homem original, uma sociedade original, uma
língua original? Procura-se agora um partido original. São conceitos que
pertencem ao universo do pensamento mítico. Na vida real, não há começos
absolutos, descontaminados de decadências posteriores. Não há pontos de partida
e de chegada. Há processos. Os trabalhos etnológicos de Bronislaw Malinowski
[antropólogo inglês nascido na Polônia, 1884-1942] foram decisivos para
estabelecer isso.
O caso do PT, por ser tão recente,
é ainda mais claro. Os malfeitos que têm vindo à luz não começaram agora nem
decorrem de um equívoco individual. Representam apenas a transferência, para a
esfera do governo federal, de práticas iniciadas, com certeza, nos primeiros
anos da década de 1990, talvez antes, e nunca descontinuadas. As impressões
digitais do mesmo grupo aparecem na gestão do Fundo de Amparo ao Trabalhador
(FAT), na organização das finanças da campanha presidencial de 1994, na gestão
de algumas prefeituras, como a de Santo André, na busca de controle de fundos de
pensão, para citar apenas as situações mais notórias. Sobre tudo isso, há
anos, correm histórias escabrosas, pois um esquema tão amplo e longevo nunca
permanece completamente invisível. Ao aceitar conviver com isso, ao mesmo tempo
mantendo a bandeira da ética para consumo externo, o PT ficou exposto à ação
corrosiva da hipocrisia, que o destruiu.
Duendes
Lula sempre compartilhou da
intimidade do grupo e foi o principal beneficiário de suas ações. Garante,
porém, que nada sabia. Respeito quem acredita nisso, assim como respeito quem
acredita em duendes. Seja como for, pelo número de conexões já descobertas e de
instituições envolvidas, estatais e privadas, parece claro que estava em curso,
em seu governo, a montagem de uma rede de corrupção poucas vezes
igualada.
Uma rede sistêmica, planejada,
coletivamente organizada. Dos Correios à Petrobras, das empreiteiras com
créditos a receber às verbas de publicidade, do Banco do Brasil aos fundos de
pensão, nada estava, em princípio, fora de seu raio de ação. Um esquema desse
tipo sempre precisa de forte apoio em altos escalões de governo, que ordenam os
pagamentos e fazem as nomeações. Sílvio Pereira, Delúbio Soares, Waldomiro Diniz
e outros "operadores" nunca tiveram cargos que lhes permitissem agir sozinhos de
forma eficaz.
Novos passos estavam por vir.
Depois da reforma sindical, já anunciada, o grupo poderia dar o grande salto,
com a transformação das centrais sindicais em entidades muito mais
centralizadoras, financeiramente poderosas, aptas a gerenciar bancos, planos de
saúde privados e fundos de pensão. O grupo deixaria para trás a fase de
"acumulação primitiva", baseada no crime, e se estabeleceria dentro da lei, por
meio, principalmente, do sindicalismo de negócios. O trânsito em direção a uma
atividade empresarial regular, muito rentável, é o sonho de toda máfia. O
predomínio desse projeto ajuda a explicar por que foi abandonada tão fácil e
completamente qualquer veleidade de fazer um governo republicano e
transformador. Os objetivos, há muito tempo, eram outros.
Estamos diante de um fenômeno novo
em nossa história. Ele tem várias dimensões. Uma delas é a introdução, na
esquerda brasileira, em larga escala, daquilo que Marx chamava, em outro
contexto, o "poder dissolvente do dinheiro". As sociedades antigas, baseadas na
tradição, na hierarquia e na religião, desconfiavam de banqueiros e de grandes
comerciantes e não raro os reprimiam, porque percebiam que o fortalecimento da
esfera do dinheiro desagregaria tudo o mais. Foi o que finalmente aconteceu no
mundo moderno, para o bem e para o mal, com a completa mercantilização da vida
social. Processo semelhante ocorreu na esquerda brasileira nos 15 últimos
anos.
Escrito por Antonio Alves às 21h20
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continuação
A hegemonia obtida pela Articulação, no PT e na CUT, não pode ser desassociada do uso sistemático dessa nova e poderosa arma, até então desconhecida entre nós, a arma do dinheiro. Ela acabou destruindo sonhos coletivos. Tornou desnecessária a batalha de idéias. Transformou a militância em um estorvo, diante da docilidade dos cabos eleitorais remunerados. E terminou por engolir os seus próprios executores. Seus projetos de origem, que continham alguma política, também foram dissolvidos pelo mesmo poder.
A rede de cumplicidades que o grupo reuniu em torno de si, com variados graus de engajamento e responsabilidade, contamina tão profundamente o PT que uma reforma séria do partido tornou-se inviável. Cumpriu-se minha profecia, feita da tribuna, cara a cara com os 600 delegados no encontro nacional de 1995, o último do qual participei: ao aceitarmos financiamentos de bancos e empreiteiras, feitos à revelia das instâncias partidárias, estávamos diante do ovo da serpente que iria nos engolir. Dessa responsabilidade histórica, muitíssimo grave, Lula não escapará. Sua liderança corroeu, por dentro, parte expressiva da esquerda. Não deixará nenhum legado político, teórico ou moral.
Lula optou pela esquizofrenia: corta todas as verbas dos ministérios, para fazer o alucinado superávit exigido pelo capital financeiro, e anuncia que nenhum governo realiza tanto quanto o seu; demite Olívio Dutra para nomear um protegido de Severino Cavalcanti e diz horas depois que a elite jamais conseguirá pressioná-lo; seu filho recebe R$ 5 milhões de uma concessionária de serviços públicos, ele nomeia um advogado da mesma empresa desembargador do tribunal onde ela enfrenta suas maiores causas e isso não o impede de anunciar-se como o mais ético dos brasileiros; depois de dois anos e meio na chefia do governo, continua a atribuir as dificuldades a uma herança maldita que ele só fez agravar. Abdicou de uma coerência mínima entre o que faz e o que diz.
Aposta na desinformação do povo e numa identificação pré-política, irracional, com ele, porque um dia, há muito tempo, foi pobre. Está se tornando um "espetáculo excessivo", para usar a expressão de Roland Barthes, referindo-se às lutas de catch. Ao contrário do que normalmente se diz, seu governo é mais conservador na política que na economia. Lula foi a esperança fraudulenta a que Ernst Bloch se referia.
Perto do fim
Há mais de dez anos o PT está morrendo, mas esse processo não podia completar-se antes de o "Lula-lá" se realizar. A agonia se prolongou e o partido apodreceu. Tornou-se uma experiência efêmera, e fundamentalmente equivocada, na vida brasileira. Pretendendo ser o novo absoluto, rompeu a memória das lutas populares. Recusou a teoria. Fechou os olhos para a diversidade do Brasil. Afrouxou os princípios, exacerbou a arrogância. Aceitou a disseminação de um enorme conjunto de antivalores, formando a mais desqualificada geração de quadros e líderes de toda a nossa história.
Perdoem-me os inúmeros petistas honestos, mas não é hora de meias palavras. A imensa maioria deles foi cúmplice da desventura, pelo menos por omissão. Felizmente, o ciclo do PT está prestes a se encerrar. O partido continuará a existir como mais uma legenda pragmática, destituída de utopia, na qual se disputam eleições e se constroem carreiras. Só isso. Por mais dolorosa que seja a crise, ela permite antever o fim do pesadelo de uma esquerda sem fibra, honra e caráter, incapaz de apresentar à sociedade brasileira um projeto histórico transformador. Muitos temem que a direita se fortaleça. Estão certos, mas só no curto prazo. Paradoxalmente, a crise do governo Lula poderá vir a ser a crise do neoliberalismo no Brasil, propiciando, finalmente, o aparecimento de uma proposta real de mudanças, cujo contorno continua obscuro.
Não creio, porém, que a sociedade aceite passivamente o retorno dos velhos esquemas, já conhecidos, que afundaram o país no atoleiro. Ela demandará um projeto novo. Nossa grandeza será medida pela capacidade que tivermos para construí-lo. De esquerda, de preferência. Com a esquerda, se possível. Sem a esquerda, se necessário, pois a crise brasileira é grave demais. Há muito sofrimento humano em jogo. No que me diz respeito, o compromisso com o povo e a nação está acima das seitas.
Nossa consigna deve ser, agora, o "motto" do último movimento do opus 35 de Beethoven: "Muss es sein? Es muss sein!" -Deve ser? Deve ser!
César Benjamin foi fundador do partido e dirigente até 1995. É autor de "A Opção Brasileira" e "Bom Combate" (ambos pela Contraponto) e integra a coordenação nacional do Movimento Consulta Popular.
Escrito por Antonio Alves às 21h19
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