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Agência Pirata Press

Além do buraco

TT Catalão

 

Fiquei longe de Brasília na semana passada para visitar sete centros de cultura popular em Olinda, um no Recife e um na Zona da Mata, norte de Pernambuco, município de Aliança, sítio Chã de Camará. Exatamente sete dias longe – geograficamente, ao menos – da pressão neurótica desse abismo de lodo.

 

Fiquei atento ao nível de contágio desta crise política no meio vivo de artistas com forte compromisso comunitário. Mesmo sob o impacto de tristeza, sem digerir bem indignação e vergonha pelo desastre moral localizado no tal núcleo duro do Poder, ninguém demonstrava amargura, sentimento paralisante quando a perplexidade vira impotência.

 

Talvez por serem artistas habituados ao saudável espírito rebelde – politizados e até militantes partidários – a sensação é de absoluta emergência pelo tanto que será necessário recolher das ruínas para continuar a luta. A mídia põe as vísceras da crise em todos os recantos. No alto da Sé, em Olinda, ou na barraca de biscoitos da dona Lina, na Esplanada dos Ministérios, a crise borbulha. Há, no entanto, diferença entre quem, hoje, tem a consciência limpa e aqueles que pecaram ou por estratégia, ou por omissão, ou pela condução devassa do processo de governo – quase sagrado pela tamanha confiança depositada.

 

Quem tem as mãos limpas está disposto a resistir. Artistas reagem pela consciência, pela beleza, pela expressão libertária, pelo sentimento coletivo do canto, do ritmo, das formas, imagens, sons e palavras. Olinda, especialmente, é uma universidade de cultura popular a céu aberto. Ver como os grupos superam suas dificuldades quando estão no transe do criar é uma aula para vencer a dor. Quem lamuria fica pelo caminho. Quem rosna morde a língua e trava o fluxo da vida. A maioria diz sim e vai adiante.

 

Ao pisar o chão do artista popular a gente percebe o quanto os caixotes dos gabinetes alienam. O quanto viver atrás da mesa, oculto pela muralha dos relatórios, rouba a mira, o alvo e a fibra. Compartilhar o mesmo pão é que dá a real dimensão da palavra companheiro. Conviver pelo prazer solidário da troca, a tal “base”, permite o oxigênio que irriga e legitima qualquer movimento. Somos nós os autores das autoridades.

 

É dessa gente que não desiste que se espera, não morra, o sentimento de que sempre valerá a pena enquanto houver o que insiste. O arrepio e a emoção ao ver trinta caboclos de lança, explodirem em cores, do canavial para o pátio brincante, no maracatu rural Estrela de Ouro - Ponto de Cultura de Aliança-PE -  é uma realidade concreta tão ou mais realidade que a matriz do desatino atual. O Chã de Camará assume a verdadeira Câmara dos comuns. Ao ouvir seu Biu Neguinho, improvisar no Coco, que não há fome na vida para quem tem fome de viver, percebe-se o quanto acreditamos em “realidades parciais”, fragmentadas em seus ruídos subjetivos.

 

Assim, deixamos escapar as realidades autênticas que suam e soam pela verdade de que há um Brasil que não parou, não morreu e vai renascer das cinzas. Mesmo que se quebrem alguns cinzeiros. Curioso haver tanta verdade no Brasil imaginário e tanta mentira no Brasil imaginado. É a peleja da arte contra o enfarte.

 

Já disse Ednardo em seu Pavão Mysteriozo “eles são muitos, mas não sabem voar”!



Escrito por Antonio Alves às 09h35
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companheiros

Dirceu na linha de fogo. Sozinho?

MILTON TEMER

02/AGO/2005 — Jornal do Brasil

Meu caro José Dirceu,

Certamente me falta o talento de Elio Gaspari, para transformar cartas imaginárias em ensaios políticos. Já tinha, aliás, aprontado o artigo de hoje. Mas julguei insuficiente a relação distante do simples analista, diante das características particulares de nossa relação, pessoal ou política, para fazer considerações sobre a situação dramática que hoje você enfrentará. Disputamos duas vezes a presidência do Partido dos Trabalhadores, em Encontros Nacionais que considero memoráveis - o do Glória, no Rio, em 97, e o de Belo Horizonte, em 99 -, sem que daí resultem marcas profundas.

Tenho orgulho das campanhas que fiz. Representei aquilo que a parte limpa e comprometida com o bom combate no PT representava. Você era o que de melhor havia no chamado campo majoritário. Não só pela capacidade organizativa, como, e principalmente, pela história de tua vida de lutas. E confesso, misturando o tu com o você, que não sinto nenhuma sensação de forra pelos destinos que nos separaram. Pelo contrário; o quadro atual me entristece pelo muito que trouxe de frustração e desencanto para o povo brasileiro.

Tua condição é dramática. Os membros da direção partidária, que ontem te seguiam cegamente, hoje colocam reticências nas frases incompletas com que evitam ser contaminados pelas denúncias que te rondam. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se move como se nada tivesse a ver com toda a movimentação em que você se empenhou, subordinado essencialmente aos interesses dele, naquilo que entendia como política de alianças - mas que muita gente vê hoje como aproximação espúria com péssimas companhias.

E está aí o novo ''companheiro'', Severino Cavalcanti, dando cartas e indicando ministros, para provar que não era você, por moto próprio, quem estabelecia os laços. Aliás. quem tem um mínimo de intimidade com os bastidores petistas sabe muito bem que nada se concretizava à revelia de Lula.

Você vai estar, hoje, em difícil situação. Vai ser recebido na condição de testemunha, com todos os ônus, daí resultantes, principalmente o de não poder se contradizer. Mas sabe que será ouvido como réu, investigado, sem nenhuma proteção constitucionalmente concedida aos acusados diretos.

Segundo o anunciado, terá Roberto Jefferson na fila do gargarejo. O tomaso-buscheta brasileiro sabe que só pode manter a aura de herói, concedida até por alguns prestigiados apresentadores de televisão, se te humilhar. E só tem dois caminhos para isso: revelando detalhes de conversas não divulgadas - como a que Aldo Rebelo acompanhava, no dia seguinte ao discurso da Câmara em que se manifestou pela primeira vez - , ou fazendo você ''amarelar'', numa reprise do que impôs a membro da CPI a quem esteve associado em recentes campanhas eleitorais.

Só não ocorrerá a segunda hipótese se você não se prender a puros recursos jurídicos, e recuperar sua origem política. Recuperar os princípios que jogou para escanteio quando assumiu a elaboração das teorias pragmáticas que transformaram Luiz Inácio em quindim dos banqueiros de Wall Street, e de seus parceiros tupiniquins.

Para tanto, há que aproveitar a ocasião, ousando. Fazendo uma autocrítica que revele as razões profundas das ofensas à democracia interna que ajudou a executar. Deixando claro que as intervenções brutais contra a esquerda petista no Rio não foram acidentes de percurso. Que sabotar Chico Alencar na quase vitoriosa campanha de 96 à prefeitura do Rio, ou intervir contra a decisão democrática que definiu a candidatura de Wladimir Palmeira ao governo fluminense, em 98, foram atos deliberados de uma estratégia prédefinida.

Uma estratégia confirmada na expulsão covarde e ilegal de Heloisa Helena, Luciana Genro, Babá e João Fontes, pelo ''crime''de se manterem fiéis ao programa, ao tempo em que a direção chafurdava na traição. Uma estratégia pautada pela entrega das rédeas do governo aos adversários que o PT sempre combateu.

Você terá que se desculpar também pelos assessores que nomeou para a Casa Civil. Não por Delubio que todos sabem sempre ter sido da estreita confiança de Lula. Mas de Waldomiro Diniz você não pode escapar. Você sabia quem ele era.

Não tenho dúvidas, Dirceu. Com tal atitude você faria a verdade vir à tona. E sairia do Conselho de cabeça erguida diante do povo brasileiro.



Escrito por Antonio Alves às 17h35
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