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mão e palmatória

- Oi Antônio. Você tinha razão quanto á importância do DNA tucano, os fatos de Minas, como tentativa de forçar um acordo com a oposição. Alinhavei preocupações e anexei pra você.

- Oi, Mag. Vou publicar o texto do Luciano Martins Costa na coisa em si. Posso publicar também a sua "paella", que tem orientação bem diferente?

- Ai, pode. Discordo quase totalmente do texto do Luciano. Só por isso que pode.

 

 

Um grande acordo ou uma paella brasileña?

 

Margrit Schmidt

 

A aproximação do governo e da oposição para uma conversa em torno do acordo que poderá salvar o mandato do presidente Lula e as aparências no Congresso Nacional é a maior novidade da semana. A tática do governo de espalhar denúncias para os demais partidos, concentrando seus ataques no PSDB e atingindo de leve o PFL parece estar dando resultados Ontem o ministro da Coordenação Política, Jacques Wagner, sinalizou que o governo tem boa vontade em conversar com a oposição em torno de uma proposta que permita a conclusão das investigações e o funcionamento normal do Congresso.

O desenho que se tem destas articulações é o de um grande acordo que ignore os fatos. Mas os fatos são invencíveis. O noticiário desta semana registra que o publicitário Marcos Valério já operava esquema semelhante, agora descoberto, de arrecadação e financiamento de campanha. O tal DNA tucano (!) do esquema foi encontrado na campanha de reeleição de Eduardo Azeredo em Minas em 1998. O presidente Fernando Henrique Cardoso veio a público dizer que as investigações “não podem perder o foco”, que são as denúncias de hoje. Mas o envolvimento de tucanos no esquema de Valério certamente dará munição para que o governo e o PT desviem o foco, forçando um acordo que seja conveniente à “governabilidade”.

Um desfecho possível para este acordo é a cassação de uma dezena de parlamentares, incluindo duas ou três cabeças coroadas, alterações na lei eleitoral e no financiamento de campanha e um discurso “moralista” por parte das lideranças partidárias, com o a argumento que “estamos reconstruindo a nação”. Tudo conversa fiada.

Novamente caímos na questão: a sociedade vai aceitar uma saída destas? Os fatos vão permitir que os caciques políticos costurem um a acordo para salvar as próprias peles? Há disposição na imprensa de participar desta operação abafa? Entidades representativas da sociedade, com tradição de luta democrática, vão aceitar?

Ontem 200 servidores do INSS, em campanha salarial, organizaram uma manifestação durante a presença de Lula em Porto Alegre. Levavam faixas e cartazes contra a corrupção e o mensalão. Os manifestantes saíram em passeata pela rua da Praia, no centro da cidade. Em pouco tempo, eram duas mil pessoas, de acordo com cálculo da PM, marchando e cantando slogans contra a corrupção. Combustão espontânea. Na semana que vem, recomeçam as aulas. Estudantes forma às ruas este ano em Vitória e em Florianópolis protestar contra o aumento das passagens de ônibus e seus protestos chegaram a gerar cenas de enfrentamento com a polícia. O acordo costurado em Brasília não passa nem perto de cogitar que existe povo no Brasil.

Em seu livro “O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte”, no qual escreveu que a história só se repete “como tragédia e como farsa”, Karl Marx afirma: “todo um povo que pensava ter comunicado a si próprio um forte impulso para adiante (...) se encontra de repente trasladado a uma época morta, e para que não possa haver dúvida sobre o retrocesso, surgem novamente as velhas datas, o velho calendário, os velhos nomes, os velhos éditos que já se haviam tornado assunto de erudição de antiquário”.

Na semana que vem os estudantes estarão de volta. O que a história brasileira vai produzir, uma tragédia ou uma farsa?



Escrito por Antonio Alves às 13h50
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por um lado

Eis o texto de Luciano Martins Costa cuja leitura os blogs dos jornalistas (Altino, Noblat) recomendam e que N.N. recolheu do Observatório da Imprensa e enviou.

 

A inexorável desconstrução de Lula

 

Luciano Martins Costa

 

Vou ousar aqui repetir um destempero que me atrevi a publicar no jornal O Estado de S.Paulo, em 1992, alguns meses antes de começarem os caras-pintadas a exigir nas ruas a saída do então presidente Fernando Collor de Mello: o governo acabou.

Pode parecer aos mais sensíveis - ou aos mais sensatos - que o observador ensandeceu, ou que simplesmente espera chocar os leitores para lhes extrair comentários, o que sempre envaidece os articulistas. Mas faço a afirmação, convencido pela mesma razão que me fez acreditar, há 13 anos, que o governo Collor estava chegando ao fim: eu havia testemunhado - e registrado, na "Coluna do Estadão", de que fora titular, e em artigos na página 2 - a movimentação lenta mas inexorável das grandes forças econômicas do país para fora do círculo de apoio ao então presidente Collor.

A reação extremada da Fiesp após a detenção dos empresários Eliana Maria Piva de Albuquerque Tranchesi e Antonio Carlos Piva de Albuquerque - desproporcional, sob todos os aspectos, à relevância do fato - é a linha d´água sutil, mas muito significativa, que define o afastamento do poderoso capital paulista do governo, até então tolerado, sob a chefia do ex-metalúrgico do ABC.

Não que o partido do presidente não tenha dado contribuição suficiente para o desfecho que o observador percebe no horizonte. Ninguém, em sã consciência, descartaria o efeito devastador das revelações sobre falcatruas cometidas pelos petistas, sobre as chances de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levar seu mandato até o fim, ou de, remotamente, se reeleger em 2006. Mas não é apenas e principalmente o escândalo das verbas clandestinas que motiva as forças econômicas - e, por extensão, a grande imprensa - a determinar que Lula deva deixar o poder antecipadamente ou se contentar em completar o atual mandato.

O que pode estar definindo o fim do namoro do patrão com o operário é que, depois de haver conseguido equilibrar um programa econômico que interrompeu a espiral das crises e recolocou o Brasil com destaque no mapa dos negócios mundiais, o governo Lula resolveu levar a sério esse negócio de responsabilidade fiscal. Primeiro, a Polícia Federal prende o dono de um dos mais vistosos escritórios de advocacia tributária do país, colocando sob a mira da Justiça uma seleta lista de empresas de boa reputação. Depois, os policiais levam sob custódia os donos da butique de luxo que faz vibrar o coração provinciano do povo remediado para cima. Em seguida, consolida o projeto da Super Receita, que está destinada a funcionar como o FBI do fisco.

 

Caldeirões do inferno

Quem, por dever de ofício, é obrigado a ler os relatórios de bancos de investimento e as análises sobre a economia brasileira distribuídas no mercado, não pode ignorar que, de quatro semanas para esta data, os especialistas têm indicado que os fundamentos econômicos e a segurança dos investidores estariam sob risco bastante relativo, em caso de afastamento do presidente da República. Bastaria, para tranqüilizar o mercado, que se consolidasse a possibilidade de um sucessor confiável, capaz de manter a política econômica no mesmo rumo - e deixasse o resto mais ou menos como está, diria um analista mais malicioso.

Se não há perigo para os investimentos, quem precisa tolerar por mais um mandato um governo que a qualquer momento pode resolver fazer reformas indigestas, ainda mais se pesa sobre ele a suspeita de ter se favorecido de dinheiro do caixa 2 de empresas? Se sobreviver ao escândalo, quem garante que, num eventual segundo mandato, Lula não cairia na tentação de reconstruir uma base de apoio menos confiável do que os partidos de aluguel que agora o arrastam para o mar de lama?

Pois bem. O sucessor que está sendo preparado chama-se Ciro Gomes. Discretamente, a oposição conduz o ministro para fora do escândalo, apesar de o deputado Roberto Jefferson, autor das denúncias que destamparam os caldeirões do inferno petista, já tê-lo envolvido em irregularidades no projeto de transposição das águas do rio São Francisco.

Ciro já foi o querido da mídia, em certa altura das eleições de 2002. Tem carisma, pode herdar alguma popularidade do governo Lula e fica bem na TV. Com a economia segura, ele é o nome que tranqüiliza o mercado, dizem alguns analistas.

Escrito por Antonio Alves às 19h14
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continuação

Processo de desmanche

A pauta que a grande imprensa já comprou diz que o presidente Lula pode não ser cúmplice das falcatruas que vicejaram sob suas barbas, mas - por isso mesmo, e por outras razões - não tem o perfil necessário para ser presidente da República. Se chegou ao cargo, foi um acidente histórico, possibilitado por manobras marqueteiras financiadas com dinheiro sujo. Se seu governo é até aqui bem-sucedido em termos gerais, o mérito não seria dele, mas de sua equipe econômica. Dar-lhe um segundo mandato seria, por essa lógica, premiar a incompetência ou a desonestidade.

Há uma versão mais radical da mesma pauta, patrocinada por aquela parte do empresariado e da política que não quer ver em operação uma força policial treinada para reprimir o crime econômico. Essa versão mais radical, operacionalizada - para usar o jargão de seus patrocinadores - pela turma do gatilho, traz um interesse adicional: a indústria de armas e seus defensores gostariam de levar a crise a um impasse institucional que lhes desse a oportunidade de reverter o referendo sobre o desarmamento civil.

Um texto muito bem elaborado começou a circular nesta semana, sob a forma de abaixo-assinado, alcançando inicialmente endereços eletrônicos de brasileiros com residência em Londres, Boston e Nova York, espalhando-se rapidamente pela internet. Defende explicitamente o impeachment imediato do presidente da República, alinhando fatos reais, denúncias, boatos, interpretações livres e afirmações tresloucadas sobre o envolvimento de Lula em uma conspiração mundial que inclui as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o Movimento dos Sem-Terra, a Líbia, a Síria, o governo Chávez da Venezuela, Fidel Castro e o narcotráfico internacional.

O arco desse processo de desmanche do governo Lula começa em artigos nos quais se insiste em que, pelo fato de não possuir diploma universitário, o presidente está despreparado para o cargo, mesmo que, objetivamente, seu governo possa ser considerado um sucesso, dadas as circunstâncias em que tomou posse. Termina em e-mails e blogs mais ou menos coerentes, mais ou menos bem elaborados, mas sempre eficientes em minar a confiança geral no atual governo. No centro desse processo está a ação política combinada às operações de mídia.

 

Lição de História

É exercício didático a leitura dos sites de partidos políticos. Ali se percebe como se exercita a espiral de formação da opinião pública. O político faz uma declaração, que a imprensa divulga, o articulista comenta, o editorial chancela e o site partidário realimenta, dizendo que, segundo a imprensa, tal e tal. O político comenta a especulação que virou afirmação da mídia e um palpite vira fato.

Quando o observador afirma que, para a grande imprensa, o governo Lula acabou, não está fazendo eco ao coro dos petistas flagrados com a mão na mala preta, segundo a qual "a direita conspira para derrubar o governo popular". O observador precisa vasculhar as fontes mais variadas e olhar os fatos com o máximo de objetividade. Não há, na história do Brasil, personagem que tenha resistido à combinação das forças políticas conservadoras com as premissas da grande imprensa.

Não é preciso muito mais para que se consolide na opinião pública que, de fato, Lula foi conivente com a corrupção ou é incompetente. Também não será necessário muito esforço para que a margem de erro da próxima pesquisa de opinião, no limite das incertezas, seja vertida para a coluna negativa, induzindo às manchetes definidoras de uma completa derrocada da popularidade do presidente. Sua aprovação entre os considerados mais educados já está em declínio acelerado.

Debilitado por sua própria incompetência, o Partido dos Trabalhadores tem hoje um poder de mobilização muito reduzido. Não se sabe (porque os últimos anos de comando centralizado nas mãos de José Dirceu o tornaram menos transparente) se ainda persistem em seus quadros líderes capazes de mobilizar a militância para a defesa do governo. O senador amazonense Jefferson Peres (PDT), que na falta de um Ulysses Guimarães tem sido citado pela imprensa como uma espécie de Ruy Barbosa contemporâneo, já alertou que uma tentativa de derrubar Lula pela força - mesmo a força constitucional - poderia gerar sérias instabilidades sociais e políticas.

Mas a grande imprensa brasileira aprendeu muito nos últimos anos. Move-se em consonância plena com suas alianças econômicas e políticas. Suas premissas não são propriamente o que existe de mais avançado em termos de consciência do interesse público, mas sabe se alimentar em boas fontes de conhecimento. A crise a tornou mais conservadora, o desaparecimento daquela geração de patriarcas que enfrentou as turbulências do século 20 a deixou menos educada. Mesmo assim, ela evolui. Não apoiará uma versão desarmada do golpe de 1964, mesmo que respaldado numa interpretação conveniente do texto constitucional.

A imprensa trabalha para desconstruir Lula, para deixá-lo só, sem uma base partidária e sem condições de consolidar uma aliança que lhe desse a possibilidade de lutar pela reeleição. Quer lhe ensinar uma lição de História: lugar de operário é ao pé da máquina. Quer fazê-lo ver que a eleição de 2006, mesmo que ele chegue lá com a popularidade preservada, será um massacre, porque a massa vai votar naquele que ficar bem na TV.

E ninguém fica bonito tendo ao fundo um mar de lama.



Escrito por Antonio Alves às 19h12
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