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Esquerda do PT estuda deixar o partido

 

Gerson Camarotti - O Globo

BRASÍLIA - Preocupado com a velocidade com que cresce a crise política no PT, um grupo de deputados que integram a esquerda petista já avalia a possibilidade de deixar o partido. O prazo limite para uma decisão é setembro, quando ocorre o processo de eleição direta para o comando da legenda, e o grupo saberá, então, que espaço terá no comando da legenda.

Alguns deputados já iniciaram conversas com o P-SOL. O deputado Walter Pinheiro (PT-BA), que integra a tendência radical Democracia Socialista, relata que está conversando com a senadora Heloísa Helena (P-SOL-AL). A angústia na esquerda do PT cresceu depois que o ex-tesoureiro Delúbio Soares admitiu que fazia caixa dois para o partido.

- Estamos conversando. Muitos deputados da esquerda podem deixar o partido. O P-SOL é uma possibilidade concreta para nós. Mas temos que ter o cuidado para que não se repita o erro que o PT cometeu de verticalizar o comando partidário - contou Pinheiro.

A senadora Heloísa Helena confirma as negociações:

- O P-SOL está trocando idéias com vários deputados da esquerda do PT.

Os deputados das tendências de esquerda, que somam cerca de 30 parlamentares, analisam três possibilidades para o futuro do grupo, caso seja vitorioso nas eleições diretas o Campo Majoritário, tendência mais alinhada ao presidente Lula e há até pouco comandada pelo deputado José Dirceu (PT-SP) e o ex-presidente José Genoino. Um grupo defende a saída imediata do PT. Uma parcela menor quer permanecer no partido, mas com a proposta de radicalizar na disputa interna. Outros analisam a possibilidade de abandonar definitivamente a militância político-partidária. Esse é o grupo dos desiludidos.

- Essas próximas semanas serão decisivas. Pela primeira vez, nós da esquerda estamos nos perguntando fortemente se há vida política fora do PT. E quem pergunta, quer resposta - disse o deputado Chico Alencar (PT-RJ).

Ele avalia que o processo de eleição direta no PT pode gerar um anticlímax no partido. Apesar de ter 800 mil filiados, a cúpula do partido teme que menos de 80 mil petistas compareçam às urnas em setembro. Segundo Chico Alencar, está faltando humildade para a atual cúpula petista para conduzir o grave momento do partido. E considera que isso pode levar um grupo de deputados a sair da legenda.

A mesma visão é compartilhada pelo deputado João Alfredo (PT-CE), principal liderança do grupo político do qual faz parte a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins.

- Só nos restam duas opções: continuar no esforço de mudar a cara do partido, ou sair a tempo de se filiar em outra sigla - diz Alfredo, referindo-se ao prazo de mudança de partido para quem for disputar a eleição do ano que vem, que é outubro próximo.

- O processo de desgaste do PT é irreversível. Temos que levar em conta que a tendência de Lula é se descolar do partido. A crise é do Campo Majoritário. Por isso, estamos sem alternativas. Mas tudo vai depender do resultado das eleições internas do PT - completa João Alfredo.

Embora já estejam discutindo a possibilidade de debandada, o grupo de esquerda do PT ainda tem esperança de que seus representantes conquistem maiores espaços na cúpula do partido no processo de eleição direta, em setembro.



Escrito por Antonio Alves às 17h56
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Em anexo uma matéria  da Karina Ribeiro Peixoto que peguei na Agenda Carta Maior. Fala da intervenção do Moacir Gadotti (Instituto Paulo Freire) sobre os jovens. E depois fala da intervenção da americana Joyce King. As intervenções foram feitas no Fórum Mundial de Educação de 2004. São visões interessantes. Servem à reflexão. NN

Professores devem reaprender a escutar juventude, diz Gadotti

Katarina Ribeiro Peixoto

 

Porto Alegre - Uma das cenas mais fortes do premiado filme de Michael Moore, "Tiros em Columbine", é a entrevista que o polêmico cineasta norte-americano faz com um roqueiro. O cantor, Marilyn Manson, é um rapaz meio bizarro, de rosto maquiado, amaldiçoado pelos conservadores e muitas vezes acusado de incentivar a barbárie e o suicídio entre os jovens, como se deu na escola americana cujo universo é objeto do documentário de Moore. Nessa entrevista, o cineasta pergunta a Manson o que ele acha que os jovens de Columbine precisam. O cantor, com a tranqüilidade de um zen-budista, responde: "acho que é preciso perguntar a eles o que eles querem".

A juventude é comumente apresentada pela mídia como se fosse uma categoria ou mesmo uma classe. Nessa apresentação, o jovem aparece perplexo, violento, desinteressado. Esse jovem, assim caracterizado, tem a figura do jovem de classe média. Com esse breve comentário o educador Moacir Gadotti abriu a mesa "A juventude, a educação e a democracia", realizada no segundo dia do III Fórum Mundial de Educação. O professor, titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Instituto Paulo Freire, apontou os problemas envolvidos nessa homogeneização dos jovens com um editorial do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, nas mãos, cujo título é "Violência juvenil". O problema que emerge dessa caracterização está, sustentou o professor, numa profunda diferença que se estabeleceu entre adultos e jovens, assim como entre adultos e crianças.

Ao não se mostrar a diversidade e a existência, na realidade, de várias "juventudes" incentiva-se, segundo o professor, a lógica dos interesses momentâneos. Isso é facilitado porque a juventude tem um acesso mais facilitado à tecnologia. Se esse acesso é maior e mais rápido do que há poucos anos atrás, ele é também fortemente marcado pelo predominante conteúdo imagético, onde a palavra falta. "O jovem hoje é mais estimulado pela imagem que pela palavra. E o maior problema que enfrentamos é conciliar o sensitivo com a palavra, através da educação". Para dar conta dessa conciliação, que espelha o afastamento entre adultos e jovens na distância entre professores e alunos, Gadotti recorreu à ciência: "A neurociência já provou que o cérebro funciona de dentro para fora, portanto, não adianta querer passar conteúdos de fora, que não encontram ressonância dentro".

 

Escutar, para "ler o mundo" com o jovem

Para ele essa é a grande dificuldade dos educadores e das escolas, hoje. Por isso, observou, "o jovem não vê sentido no que está aprendendo". Ao passo que se verifica um entusiasmo no início da vida escolar, quando as crianças estão entre os 6, 7 anos, depois observa-se uma decepção com a escola. Depois, disse Gadotti, "eles não querem mais aprender com a gente". A dificuldade, então, é de sentido. "O jovem tem uma alfabetização do visual antes do da palavra". Mas, qual a saída, para que a escola deixe de decepcionar e passe a ser interessante para a juventude? Gadotti respondeu: "Sobretudo, escutar. Temos dificuldade de ouvi-los, mas nós temos de ouvi-los. Nós temos, como dizia Paulo Freire, de fazer a ‘leitura do mundo‘ com o jovem".

A força da escuta do jovem se traduz na compreensão de que a escola é o espaço em que o vínculo de dependência entre adultos e crianças deve ser rompido. Gadotti lembrou a experiência por que passou, recentemente, em São Paulo, com o Orçamento Participativo Criança. Nessa experiência, que considera exitosa, ele observou que "ouvimos as crianças de maneira organizada, participativa. A criança podia falar dela mesma, da sua vida, das suas dificuldades, do que elas queriam para a sua escola, do orçamento da cidade para a sua escola. E então, uma vez ouvidas, elas começaram a gostar das escolas. Porque, se elas podem falar de orçamento, podem estudar as matérias que lhe são ensinadas". Essa experiência também serve para provar, segundo ele, que alguns preconceitos poderosos, entre os próprios professores, precisam ser superados.



Escrito por Antonio Alves às 05h53
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