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continuação
"Temos de romper as
grades"
"Quando comecei com o OP criança, um
colega meu, médico psiquiatra do hospital infantil, me disse que as crianças não
tinham discernimento para deliberar sobre as coisas que entram num debate como o
do OP." Com o sucesso da experiência, Gadotti constatou: "Essa posição mostra
como estamos despreparados para lidar com as crianças." Um dos aspectos que
revela a força desse despreparo é a atual estrutura de segurança das escolas,
principalmente da rede pública. São escolas com câmeras de circuito interno,
grades, cadeados. "Estamos em escolas de segurança máxima, quando temos de
romper as grades". Para superar isso, recomendou que cada professor tenha em
mãos um exemplar do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para não perder
de vista a necessidade de dar atenção à "criança popular", à criança pobre.
Também é fundamental, acrescentou, que "trabalhemos de forma menos corporativa.
Nós às vezes só falamos como professores; quando somos companheiros".
A escuta dos alunos é a saída que
Gadotti apresentou para recuperar o papel educador das escolas, para que elas
sejam, de fato, um lugar em que os vínculos de dependência se rompam. E, mais,
para que se compreenda que a idéia de que os jovens não querem participar, não é
verdadeira. Do fato de que os jovens não reconhecem o sistema
político-partidário como algo interessante, que os mobiliza, não significa que
eles estão alheios. "Os jovens têm suas formas de representação, que muitas
vezes são completamente diferentes das que estamos acostumados. E temos de
aprender com essas formas, também". Mudar o mundo ou caminhar em direção de um
outro mundo, assim, implica considerar quem estará nesse mundo. Como disse
Gadotti, "um outro mundo só é possível se perguntarmos às crianças e jovens o
que eles querem desse novo mundo".
"Não existe conhecimento sem
herança"
A professora norte-americana Joyce
King, que tem uma vasta experiência em educação nas escolas de periferia,
principalmente na Geórgia, onde trabalha principalmente com a questão racial,
também defendeu a participação ativa da juventude na escolha de seu futuro. Mas,
como há uma história que requer um ajuste de contas, ela defendeu com vigor o
papel do resgate da memória das populações afro-descendentes, uma memória
ameaçada por um sistema educacional que optou pela nebulosidade e pela mentira,
no seu passado.
"Negamos muito o que realmente
importa no passado", disse King, para chamar os professores à reflexão:
"Precisamos pensar seriamente sobre o passado para sabermos o que está
acontecendo hoje, no currículo dos nossos jovens". O exemplo da professora é a
apropriação do Hip Hop pela grande mídia e pelas grandes gravadoras.
"Como vocês sabem, existem dois Hip
Hop, hoje. Um Hip Hop midiático, que conta com mulheres nuas nos seus
videoclipes, e um Hip Hop político, que nasce como música de protesto, dos
jovens negros encarcerados, nos EUA". Esse exemplo foi usado para alertar sobre
o que está se passando no currículo e no interior das escolas norte-americanas,
para denunciar o caráter ideológico dessa apropriação de um tipo de música como
o Hip Hop. "Há livros nos EUA que dizem que só houve escravidão lá porque os
africanos vendiam seus irmãos. Isso não é história. Isso é ideologia." E
defendeu, ainda: "Precisamos mudar a maneira como ensinamos a história negra".
King, que começou sua fala citando um comentário de Lula sobre a relação entre
desenvolvimento e educação, salientou, com eloqüência e vigor, que, "se não há
democracia sem conhecimento, não existe conhecimento sem herança".
O
esquema da herança, com a demanda do ajuste de contas histórico assinalado por
King, precisa, então, ser mudado. E isso, salientou, também se passa no Brasil,
que a professora conhece bem. "Quem não respeita a necessidade da herança são os
mesmos que não aceitam políticas de cotas, nem qualquer ação afirmativa", são os
mesmos, para citar um dos exemplos da atuação do racismo em nossa sociedade,
"que ensinam que, no Brasil, os escravos negros não resistiram, como me
perguntou uma professora, negra, certa vez: ‘por que, diferentemente, do que
aconteceu nos EUA, aqui os negros não resistiram?’." E King questionou, em tom
provocativo: "Como é possível que ela não tenha tido acesso ao que se passou em
Palmares?”
Escrito por Antonio Alves às 02h32
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outros lados
O MUNDO PELO AVESSO
EMIR SADER
O abraço de urso de FHC
À oposição não interessa um impeachment que arrisca deslocar Lula da sua condição de acuado para a privilegiada condição de vítima, tornando-o capaz de mobilizar os setores populares. Interessa, sim, sangrar o presidente até conseguir abatê-lo nas eleições do ano que vem.
FHC aconselhou Lula a não se apresentar como candidato à reeleição! Poderíamos pensar que seu conselho é retirado da experiência do seu próprio – e ainda mais desastrado que o primeiro – segundo mandato; mas não. Até hoje, FHC só fez uma única autocrítica ao seu governo: a de ter dado pouca importância ao tema da segurança (seu correligionário, governador de São Paulo, parece estar dando bem mais importância ao tema: vide Febem, chacinas e a situação da (in)segurança pública no Estado).
FHC está oferecendo um drinque envenenado a Lula. Trata-se de um acordo político em que Lula renunciaria publicamente a candidatar-se a um segundo mandato, os tucanos fariam o “sacrifício” de participar de um governo de “salvação nacional”, a máquina de denúncias acalmaria e o campo ficaria livre para o retorno da coalizão PSDB-PFL ao governo.
Retorno que garantiria a manutenção da mesma política econômica que foi entregue ao governo Lula – vários nomes continuariam nos seus postos atuais –, retomando, ainda, o processo de privatização que permaneceu inacabado.
Além disso, prestariam um grande serviço aos EUA – de que FHC, Malan, Celso Lafer, entre outros, são fervorosos devotos – , o de liquidar com a política externa independente do Brasil, que tem procurado articular as mais amplas alianças de resistência à hegemonia imperial estadunidense, contando, também por isso, com a mais ampla simpatia e o apoio de Washington.
Eis que FHC desempenha papel similar ao de personagens como Carlos Lacerda, na tentativa de golpe de 1954 e no próprio golpe de 1964. Verdade que, hoje, já não é mais necessário freqüentar as portas dos quartéis, mas sim os agentes da especulação financeira – os verdadeiros sujeitos dos golpes contemporâneos. Esse é o papel do corvo de hoje – FHC – vivandeira das Bolsas de Valores.
Com a saída de José Dirceu do ministério, já conseguiram lixar mais ainda as unhas de Lula. O distanciamento e a inculpação que Lula anda fazendo do PT conseguem salvar sua imagem no curto prazo – afinal, teria sido traído pela confiança depositada em companheiros – mas, a médio e a longo prazos, fica enfraquecido, ainda mais se pensa na reeleição, quando o PT será o diferencial necessário. A direita quer Lula acuado, obrigado a compor um novo gabinete, ainda mais comprometido com a atual política econômica, como se ainda fosse necessário, já que a equipe econômica tem cumprido tão bem esse papel.
Escrito por Antonio Alves às 02h20
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emir - continuação
Do outro lado da mesa, nenhum personagem da política brasileira atual consegue circular com tanta facilidade e, ao mesmo tempo, tanto entre os grandes empresários, como entre os Severinos e entre os agentes do governo dos EUA, como faz FHC. Desfruta a confiança do grande empresariado e de Washington.
Conta com gente experimentada em golpes – afinal de contas Olavo Setúbal está entre os empresários que articularam o golpe militar de 1964, no famigerado Ibade, do qual participava, também, o então jovem economista Paulo Malan, mais tarde braço direito do governo de FHC, e que, naquela época, fazia análises econômicas para os golpistas, como relata René Dreyffus em seu livro “1964 – A conquista do Estado”, sobre o golpe militar.
Se Lula aceitar esse “apoio” terá decretado não somente sua morte política, como a do seu governo e a do próprio PT, como partido. Os tucanos temem o apoio popular que Lula ainda mantém, bem como sua capacidade de mobilização desses setores. Se aceitar esse presente de grego, Lula ficará refém dos tucanos, colocando-se na contagem regressiva para devolver-lhes o governo.
Terá tido uma passagem efêmera pela presidência, simplesmente para deixar consignado que as elites dominantes aceitam a alternância no governo, permitindo que até mesmo um ex-operário e ex-líder sindical possa chegar ao posto político máximo do país. Terá atestado, também, que quem quer que seja o presidente do país, nada muda, nem mudará– seja no conteúdo das políticas, seja no manejo nada ético do governo e das suas alianças.
Para essa operação retorno, FHC e os tucanos contam com membros da equipe econômica do governo Lula, que poderiam estar em qualquer um do dois governos. Têm o apoio decidido da grande mídia e, ainda, saem fortalecidos com a própria incapacidade de reação do governo frente às acusações que recebe. Aécio Neves tornou-se o mensageiro desse abraço de urso com o qual os tucanos pretendem asfixiar Lula e seu governo.
A anunciada adoção do plano de Delfim Neto de déficit zero, institucionalizando os cortes nos recursos para as políticas sociais, seria mais um aríete que a oposição quer fincar dentro do governo.
Na crise ninguém deve permanecer no mesmo lugar. Se quiser romper o cerco de que está sendo vítima, o governo precisa movimentar-se, retomando a iniciativa e deslocando a atual situação. O problema é que pensa movimentar-se rodopiando no mesmo lugar, obtendo uma sobrevivência imediata aliando-se ao PMDB, mas sob o risco de não conseguir derrotar a ofensiva de denúncias.
À oposição não interessa um impeachment que arrisca deslocar Lula da sua condição de acuado para a privilegiada condição de vítima, tornando-o capaz de mobilizar os setores populares que continuam sob sua liderança. À oposição interessa, sim, sangrar Lula até conseguir abatê-lo nas eleições do ano que vem.
Lula pode deslocar-se para a direita, aceitando o drinque envenenado oferecido por FHC; seria seu suicídio. Mas, também, pode afirmar “afasta de mim esse cálice”, pode recusar o veneno e buscar inocular-se pela única via que ainda é capaz de deslocar para a esquerda o quadro político muito negativo em que seu governo está metido. Pode buscar apoio na mobilização dos movimentos sociais, da cidadania, dos que ainda acreditam que é possível mudar o Brasil dando prioridade ao social.
Mas não se faz omelete sem quebrar os ovos. Para encontrar esse apoio, Lula precisará mudar sua política econômica de modo a garantir o desenvolvimento apoiado no mercado interno de consumo popular e na redistribuição de renda, ou seja, uma política econômica na direção do documento que os movimentos sociais entregaram a Lula.
Um grande dirigente afirma-se nos momentos de crise e na sua capacidade de diferenciar seus adversários dos seus aliados. Se não quiser afundar-se cada vez mais nesse terreno movediço que só prepara e faz avançar sua própria derrota em 2006, Lula precisa decidir-se a assumir o comando, seja pela direita ou pela esquerda. Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".
Escrito por Antonio Alves às 02h18
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por dentro do PT
Nova manifestação do Bloco de Esquerda
João Machado
A “Declaração à Militância” (reproduzida abaixo) divulgada ontem pelo Bloco de Esquerda assinala mais uma diferenciação importante deste setor do PT com relação ao conjunto daquele partido e, inclusive, com relação às direções das principais correntes da esquerda petista.
Além disso, vale notar que o documento inclui assinaturas de alguns deputados que até agora se tinham mantido alinhados com a esquerda governista e, portanto, com a direção do PT e com o governo. Se sua adesão ao Bloco de Esquerda se confirmar, será um sinal (positivo) dos tempos. Por outro lado, vale notar, também, que entre os signatários não há nenhum parlamentar da Articulação de Esquerda. Com isto, aprofunda-se a separação entre os parlamentares desta corrente e os demais parlamentares de esquerda. Em contraponto, com as recentes adesões, todos os parlamentares da Democracia Socialista (a outra grande corrente da esquerda petista) figuram como signatários (no caso da DS, desde 2003 vem havendo uma clara diferença entre a orientação da maioria da sua direção — governista — e a de muitos dos seus parlamentares).
Há diversos pontos muito positivos no documento como, por exemplo, a explicação bastante radical da origem da crise vivida pelo PT:
“Esta crise deriva de alianças políticas com partidos ideologicamente conservadores e de viés fisiológico, e de uma visão de gestão administrativa onde a barganha política sufoca o compromisso com a moralidade pública. A crise de destino do PT vem também por render-se, no governo federal, a uma política econômica ultra-ortodoxa e essencialmente continuísta, refém do capital financeiro, que não alavanca a prometida retomada do crescimento econômico com justiça social, o que contraria o programa proposto no último Encontro Nacional do PT”.
Coerentemente, o documento critica a crítica a fantasiosa explicação da crise pelo “golpismo da direita”:
“Os conservadores de todos os matizes - da direita mais reacionária aos neoliberais modernos - operam intensamente por sua volta ao poder, do qual nunca se afastaram totalmente. Mas inferir daí "movimentos conspiratórios e golpistas" não ajuda a enfrentar os problemas que, em boa parte, nós mesmos criamos”.
Além disso, o documento critica os movimentos que estão sendo realizados pelo governo federal para tentar superar a crise — a incorporação ao ministério do “pedaço do PMDB comandado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney” e a adoção da proposta de “‘déficit zero’ capitaneada por Delfim Netto, czar da economia na ditadura militar, com aperto fiscal ainda maior e duplicação de cortes orçamentários”.
Escrito por Antonio Alves às 22h44
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continuação
O documento propõe, como saída, a recomposição da Executiva Nacional do PT, sem a presença dos dirigentes acusados, e um “choque ético-político” no governo Lula.
Se este “choque ético-político” no governo Lula fosse possível, poderia ser uma boa idéia. O governo Lula deixaria para trás dois anos e meio de governo social-liberal, a serviço do grande capital, especialmente o financeiro, e se dedicaria no ano e meio que lhe resta a defender os interesses populares — depois de pedir desculpas por todo o mal que fez até agora. Lula e seu grupo romperiam com os marcos valérios, puniriam os delúbios e silvios pereiras, além de outros dirigentes envolvidos em esquemas pouco edificantes, e chamariam de volta a senadora Heloísa Helena e os outros parlamentares expulsos, depois de se ajoelharem em bagos de milho como penitência — tudo isso chorando, muito comovidos, de arrependimento.
Mas alguém acredita que esta esplêndida hipótese possa ter alguma viabilidade prática? O governo Lula, ao contrário, não está demonstrando neste exato momento que sua opção é justamente pelo aprofundamento das barganhas políticas (com o PMDB, além de tentativas ainda um tanto envergonhadas em direção ao PSDB) e pelo consórcio com o ex-ministro Delfim Netto, entre outras medidas igualmente detestáveis?
Não há como fugir da conclusão: para olhar de frente a realidade, os parlamentares do Bloco de Esquerda devem reconhecer que não haverá “choque ético-político” algum no governo Lula. O máximo de “ética” que se pode vislumbrar é o sacrifício de alguns dirigentes para tentar preservar o conjunto — ou seja, uma farsa. Quanto a “choque político”, o que está em curso é uma mudança de sentido oposto ao defendido pela esquerda. Daí que a coerência da esquerda passe, inescapavelmente, pela ruptura política com o governo Lula.
As informações que vão aparecendo sugerem que os problemas do grupo dirigente do PT são mais graves e mais antigos do que imaginávamos. Mas as coisas pioraram muito desde o início do governo Lula. O nosso problema mais grave é o governo Lula, e não José Genoino (que, como todos sabem, nunca teve muito poder próprio) ou os operadores que armaram uma lambança inédita.
Sem esta compreensão, a “Declaração à Militância”, apesar de seus grandes méritos, fica incompleta. Esperemos que esta lacuna seja preenchida proximamente. Temos diante de nós a enorme tarefa de reconstrução da esquerda brasileira, e os que já nos engajamos nela precisamos muito da ajuda dos companheiros do Bloco de Esquerda.
Escrito por Antonio Alves às 22h36
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além da reação
Um dia desses li uma análise sobre a crise política em que o autor, não lembro quem era, dizia que o governo e o PT precisavam responder e não reagir. De fato, até aqui temos visto apenas reações (defesa, fuga...), na maioria das vezes confusas e desencontradas. Mas começam a aparecer novidades. Estou publicando abaixo dois textos, um enviado pelo N.N., da Itália, outro pela Tânia, de Brasília. São grandes, ambos estão divididos em dois blocos. O primeiro é uma resposta ao comentário de FHC em sua entrevista à revista Exame, em que aconselha Lula a anunciar que não será candidato em 2006. O outro é uma carta de petistas, assinada por deputados (entre eles um acreano, Zico Bronzeado). Talvez alguns petistas estejam começando a acordar. Será tarde demais?
Escrito por Antonio Alves às 21h34
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respostas à crise
Este texto foi enviado por N.N., que não soube informar onde foi publicado. Também não enviou informações sobre o autor. Está na mesma linha da “Declaração” aos militantes do PT, que a Tânia mandou e que estou publicando logo abaixo. Será que existe um caminho, para o PT? Vida após o mensalão?
CARTAS ÁCIDAS
FLÁVIO AGUIAR
2/7/2005
Cinco razões para defenestrar Lula
Em meio à crise, vem-se dizendo à esquerda e à direita que a turma da Casa Grande não teria motivos para defenestrar Lula do Planalto, uma vez que a política econômica lhe satisfaz. Ledo engano. A entrevista de FHC à revista "Exame" é um indício disso.
Em meio à maré de denúncias e debates sobre corrupção no PT, no governo, em estatais e no Congresso, vem-se propalando tanto à direita quanto à esquerda a tese de que a turma da Casa Grande brasileira, em especial a do disco rígido financeiro e rentista, não teria o menor motivo para defenestrar Lula do Planalto, uma vez que a sua política econômica lhe protege e satisfaz o apetite.
Ledo engano. O indício mais claro desse engano é a solerte sugestão do sempre alerta Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à revista Exame que ora circula, sugerindo que Lula declare não ser candidato em 2006 como modo de saltar sobre a crise de governo, além de repetir que o PT é um partido anacrônico, estatista, etc. Dou abaixo algumas razões para que a Casa Grande queira defenestrar Lula, seja em 2006, seja antes, se esta oportunidade se oferecer ou se impuser.
1) Há prisões demasiadas de empresários aparecendo na TV, e escritórios de advocacia tendo arquivos abertos. Já se ouvem gritas na também sempre alerta imprensa, em artigos e editoriais, reclamando que a Polícia Federal está demasiado à solta. Ou que o governo faz publicidade e espalhafato com essas prisões e devassas. Ora, um Ministério da Justiça de fato comprometido com a luta contra os crimes de colarinho branco é coisa que tira o sono de muita gente na Casa Grande brasileira. E o povão gosta de ver colarinho branco criminoso algemado ou preso. Ou não?
2) Lula negociou com o MST. E resistiu ao tratoraço dos ruralistas em Brasília, não lhes cedendo tudo aquilo que queriam. Até o momento o governo não reprimiu um único movimento de trabalhadores. Apesar de envolto pela política econômica neoliberal que recebeu de herança, Lula guarda uma identificação de raiz com as classes trabalhadoras e a gente pobre. Não extirpou completamente a esquerda de seu governo nem deixou de fazer políticas sociais de relevo, ainda que comprimidas pela torneira seca do Ministério da Fazenda e dentro da moldura apertada da tecnocracia do Banco Central, através do sacrossanto superávit primário. Mas é o suficiente para que a Casa Grande não goste e veja o governo com desconfiança. Além de lhe ser também uma ameaça ao sono tranqüilo, esse permanente cheiro de pobreza e trabalho no paço é uma ofensa à sua visão de cultura, ao seu gosto e ao seu estilo. 3) A política externa. Hoje se trava uma luta na América Latina de dimensões continentais. A comarca andina está tomada por insurreições populares. Da Bolívia, vieram fotos suficientes para molestar o sono da Casa Grande, sobretudo quando entre os camponeses apareceram os capacetes dos mineiros, com seus cartuchos de dinamite a enfrentar o Exército, como em 1952. Governos à esquerda espalham-se pelo continente. É uma questão de classe: neste quadro de confronto, é fundamental para a Casa Grande retomar o controle direto sobre a política externa de metade da América do Sul, isto é, o Brasil e consolidar a sua política de alianças. Além do mais, a nova inflexão da política externa brasileira inverteu o sentido das negociações da Alca, aproximou-se de países emergentes, consolidou-se como uma das lideranças neste grupo, enfrentou os países onde se concentram os donos do mundo. É demais para a Casa Grande, cujo interesse principal é o de subordinar de todo a política externa à garantia de créditos internacionais.
Escrito por Antonio Alves às 21h24
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continuação
4) Lula ainda tem por trás de si um partido que pode se reerguer das brasas em que está sendo fritado. Esse partido é um patrimônio da esquerda nacional, continental e mundial. No momento, sua direção está acuada pelas acusações e sua militância, aturdida. Mas se esta militância vencer a confusão e trocar a direção do partido, ou pelo menos forçar a troca da direção em que a direção se move, Lula terá reativado o braço esquerdo de sua administração. Assusta as noites da Casa Grande o pesadelo de ter pela frente um partido que, ao invés de ter de ficar explicando sete dias por semana por que não afasta ou se afastam de sua direção os acusados de corrupção enquanto durem as investigações, passe à ofensiva, rearticulando-se com os movimentos sociais e pressionando para que se acentue o lado social do governo Lula e ponha em declínio o seu lado neoliberal.
5) Lula está grudado em Palocci, na Fazenda e no Banco Central, mas Lula não é Palocci. Palocci comprou e revendeu a política econômica dos tecnocratas da Fazenda e do Banco Central. Para a Casa Grande, é ele o presente fiador público dessa política, como matérias na imprensa vem demonstrando, não Lula. Lula é um acidente de percurso, uma pedra no sapato, ainda que o sapato continue andando na mesma direção. Em algum lugar do passado, Lula se declarou favorável à ampliação do Conselho Monetário Nacional. De vez em quando Lula peita a política da Fazenda. Foi assim no acordo com o MST, foi assim no caso do Fundeb. O sonho dourado da Casa Grande é ter uma disputa em 2006 entre Palocci e Alkmin, ou sucedâneo, como FHC ou Serra. Já pensou? Em que lua de Saturno eu vou me refugiar?
É claro que, para a Casa Grande, ainda há muita coisa a acomodar nesse quadro. Como satisfazer o apetite do PFL? Como ajeitar a disputa interna no PSDB? Que pedaço do PMDB atrair para uma nova frente de direita? Como garantir que a metralhadora giratória do deputado Roberto Jefferson só cause estragos no PT e no governo, uma vez que isso de manchetes só darem destaque a essa parte das acusações tem limites? Como impedir que a crise da esquerda jogue água no moinho de algum Berlusconi à brasileira, ou novo Collor, com quem tenha de renegociar suas pretensões? Como conciliar a bandeira que está se firmando, de diminuir drasticamente o número de cargos de confiança, coisa que o governo Lula deveria empalmar como bandeira, quae sera tamen, ainda que tarde, com o tradicional apetite dos partidos que a representam? Como evitar que a bandeira, que também se afirma, do financiamento público de campanhas eleitorais, comprometa seus métodos tradicionais de influenciar a vida partidária? Que concessões fazer ao Condomínio da Classe Média, agitado ou deprimido pelas novas denúncias de corrupção, e comprimido entre a avidez financeira e rentista, e a pressão por dias melhores dos "de baixo", uma vez que o currículo dos partidos que representam a Casa Grande é assustador?
O Brasil é um país peculiar, porque tem movimentos sociais organizados e muito fortes, apesar da retração que lhes é imposta em tempos de império do mercado: como impedir que eles se aglutinem e façam barreira intransponível à pretensão da Casa Grande de acaudilhar de vez o Estado pela próxima década e por todos os séculos dos séculos amém? Como afastar Lula antes da eleição, se seu prestígio junto ao povo permanecer inalterado apesar das denúncias, sem provocar uma comoção social, pondo os movimentos na rua a defender seu mandato?
Como passar à ofensiva ideológica, uma vez que tudo o que os arautos da Casa Grande na imprensa e fora dela defenderam, baseados no Consenso de Washington, deu errado no mundo inteiro e no Brasil, fazendo naufragar antes do tempo os vinte anos da prometida "era FHC"? Como rearranjar um acordo entre os interesses rentistas, industriais, comerciais, e agronegociais? Como neutralizar a bandeira da reforma agrária sem dar a impressão de que estaria fazendo isso?
Como vêem, a vida na Casa Grande, ainda que mais amena do que no resto do Brasil, também não está fácil. Uma coisa é certa: para ela, nenhuma resposta possível a estas perguntas passa pela presença de Lula no Planalto além de 2006, seja ele símbolo ou líder, ou coisa que o valha. Todas elas exigem a restauração, no paço, dos seus brasões ou varões assinalados, ao invés de alguém que ainda cheira demais a povo. Resta saber o que a esquerda vai fazer. Se vai enfiar a cabeça no buraco ou se vai de novo olhar o horizonte e recuperar sua estrela-guia. Mas isto é assunto para outra carta, que esta já vai longa na noite que estamos atravessando.
Escrito por Antonio Alves às 21h22
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Declaração enviada pela Tânia, que diz “de todas as ‘manifestações’, discursos, tentativas estéreis de fugir ao inegável, eis uma carta de petistas que, sem medo, eu assino embaixo”. Quem mais assina?
DECLARAÇÃO À MILITÂNCIA: EM DEFESA DOS VALORES DO PT
1 - O PT enfrenta, hoje, a maior crise de sua história. Seus militantes, filiados e simpatizantes estão perplexos. Inconformados com a dilapidação do patrimônio político e ético do partido, exigem dos seus dirigentes explicações, providências e novos rumos, já. Esta crise deriva de alianças políticas com partidos ideologicamente conservadores e de viés fisiológico, e de uma visão de gestão administrativa onde a barganha política sufoca o compromisso com a moralidade pública. A crise de destino do PT vem também por render-se, no governo federal, a uma política econômica ultra-ortodoxa e essencialmente continuísta, refém do capital financeiro, que não alavanca a prometida retomada do crescimento econômico com justiça social, o que contraria o programa proposto no último Encontro Nacional do PT. Aliás, o prefácio do estatuto do partido afirma que "o Brasil precisa de uma revolução ética, de outro modelo econômico e de reformas sociais e políticas que distribuam a renda, a terra e a riqueza".
2 - Esta crise, que também é desafio de superação, leva à quebra do ânimo militante – marca registrada do petismo - e produz o gravíssimo desgaste da imagem do partido como instrumento de transformação social e ética na política. Este patrimônio, que sempre cimentou nossas práticas de governos transparentes e participativos, está ameaçado por denúncias e depoimentos contraditórios no Conselho de Ética da Câmara Federal e na CPMI dos Correios, veiculados amplamente pela mídia nacional sem terem uma resposta contundente por parte da direção nacional do PT.
3 - Os conservadores de todos os matizes - da direita mais reacionária aos neoliberais modernos - operam intensamente por sua volta ao poder, do qual nunca se afastaram totalmente. Mas inferir daí "movimentos conspiratórios e golpistas" não ajuda a enfrentar os problemas que, em boa parte, nós mesmos criamos. Fazer o jogo da oposição é adotar seus procedimentos, inclusive de tentar inviabilizar CPIs, "blindar" correligionários e apostar exclusivamente nos métodos convencionais de governabilidade, abandonando os elos vivificadores com movimentos e organizações da sociedade.
4 - O governo Lula, neste ano e meio que tem pela frente, precisa produzir um choque ético-político. Deve requalificar sua base de apoio parlamentar, eliminando qualquer acordo baseado em troca de votos por cargos ou liberação de emendas parlamentares. A simples incorporação ao governo de Ministros do pedaço do PMDB comandado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney, "despetizando" a administração, nada agregará. A governabilidade de um governo de esquerda se sustenta, fundamentalmente, em seu programa de mudanças e no apoio dos movimentos populares. A Lei de Diretrizes Orçamentárias deve sinalizar a vontade de implementar a necessária inflexão na política econômica, com retomada da queda dos juros, redução do superávit primário e descontigenciamento de recursos públicos. A cortejada proposta de "déficit zero" capitaneada por Delfim Netto, czar da economia na ditadura militar, com aperto fiscal ainda maior e duplicação de cortes orçamentários, vai na contra-mão da rota mudancista.
5 - A sociedade clama por uma luta sem fronteiras contra a corrupção, "não deixando pedra sobre pedra" nas urgentes apurações, e o Congresso Nacional deve contribuir com o competente trabalho da Polícia Federal, da Controladoraia Geral da União e do Ministério Público. Nesta linha, Ministros acusados de ilícitos pela Procuradoria Geral da República, que respondem a processos no Supremo Tribunal Federal, já deveriam ter sido afastados há muito tempo.
Escrito por Antonio Alves às 21h10
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6 - Além da redução dos cargos comissionados, indicamos a priorização, para o seu preenchimento, de servidores de carreira, com competência técnica, reputação ilibada e, sem dúvida, compromisso com as diretrizes de governo. É também imperioso o estabelecimento de fronteiras entre partido e governo, evitando que dirigentes partidários sem funções oficiais façam negociações envolvendo a administração federal. Esta falta de limites claros sempre possibilita a mistura nefasta de interesses públicos e privados e compromete a necessária autonomia partidária.
7 - A retomada da iniciativa tem que se dar também no Congresso Nacional. Que haja, afinal, empenho na Reforma Política, popularizando seus temas, com ênfase no financiamento público exclusivo das campanhas e na fidelidade partidária. Que todos os detentores de cargos eletivos tenham seus sigilos fiscal e bancário abertos durante o exercício dos mandatos, e que também não possam obter, neste período, concessões para exploração de emissoras de rádio e televisão. Além do mais, é fundamental a regulamentação dos mecanismos de democracia direta previstos em nossa Constituição, para se garantir a mais ampla participação popular nos rumos do Governo.
8 - Face à crise de legitimidade e credibilidade que atinge membros da Direção Nacional do Partido, propomos a recomposição da Executiva, sem a presença de todos os dirigentes acusados - que devem dedicar-se à sua defesa - e presidida por quem tenha autoridade moral e isenção política para conduzir o PT até às eleições internas, em setembro. Esta direção provisória precisa restabelecer a democracia interna, estimulando a participação da militância e garantindo total transparência, com a formação de uma Comissão de Sindicância que realize ampla auditoria nas contas partidárias e apure eventuais responsabilidades de dirigentes em relação às denúncias, que devem também ser objeto de Comissão de Ética Interna.
9 - Sem estas iniciativas básicas e urgentes, o governo e o PT, partido político cuja maioria da Direção Nacional vem conflitando com seu programa e estatuto, correm sérios riscos. Mas o abafamento da esperança e o crescente desencanto afetará sobretudo a própria República, que não existe sem cidadania ativa. É agora, ou teremos transformado em fracasso político e ético a chance histórica que 53 milhões de brasileiro(a)s nos concederam.
10 - Por isso, conclamamos a militância petista - nosso patrimônio maior - a fazer do momento das eleições internas (PED) a oportunidade para substituir a atual direção partidária, responsável maior pela crise em que se encontra o nosso partido. E para garantir a eleição de companheiro(a)s comprometido(a)s com o resgate da credibilidade de um partido que ainda se reivindique ético, militante, democrático e socialista.
Brasília, 05 de julho de 2005
Deputados:(a)sAntônio Carlos Biscaia (RJ), André Costa (RJ), Chico Alencar (RJ), Drª Clair (PR), Dr. Rosinha (PR), Gilmar Machado (MG), Iara Bernardi (SP), Guilherme Menezes (BA), Ivan Valente (SP), João Alfredo (CE), João Grandão (MS), Luiz Alberto (BA), Maninha (DF), Mauro Passos (SC), Nazareno Fonteles (PI), Orlando Desconsi(RS), Orlando Fantazinni (SP), Paulo Rubem (PE), Tarcísio Zimmermann (RS), Walter Pinheiro (BA), Zico Bronzeado (AC)
Escrito por Antonio Alves às 21h06
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