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Ei, N.N., taí o texto do Demétrio, que Mário Lima mandou pelo e-mail. Mag reparou bem: tem um indisfarçável jeitão libelu.

 


Muito além da corrupção

 

DEMÉTRIO MAGNOLI

           

            Desde a queda de Fernando Collor, a política nacional organiza-se em torno da dupla hegemonia do PSDB e do PT, ou seja, dos partidos que expressam os projetos paulistas para a economia e a sociedade brasileiras. Nos oito anos do consulado de FHC, o PSDB conservou um tenso equilíbrio assimétrico entre o núcleo de interesses financeiros, encastelado no Ministério da Fazenda, e o núcleo de interesses da Fiesp, ancorado na corrente dos "desenvolvimentistas". A aliança com o PFL e os pactos de conveniência com setores de outros partidos conferiam abrangência nacional ao esquema de poder vigente.

O PT nasceu como expressão do sindicalismo paulista, que se articulava com os movimentos sociais de todo o país. Mas, sob os impactos combinados da falência do "socialismo real" e da integração do Brasil à globalização, o Campo Majoritário petista reciclou-se e reinventou o partido. A "refundação" foi concluída na campanha presidencial de 2002, quando o PT se definiu como um "partido da ordem". O novo PT replica, até certo ponto, as linhas de força e as tensões internas do PSDB. No governo Lula, o capital financeiro controla o Ministério da Fazenda de Palocci e o Banco Central de Meirelles enquanto o empresariadopaulista veicula seus interesses por meio da poderosa Casa Civil de JoséDirceu. O tráfico de influência com os fragmentos de partidos da "base aliada" fornece tentáculos nacionais ao esquema de poder.

Nem tudo é réplica. O PT é uma máquina partidária orgânica, o que o PSDB nunca foi. Essa máquina está sob estreito controle de José Dirceu, o chefe aparatchik que ungiu, direta ou indiretamente, a quase totalidade dos burocratas cinzentos dos escalões federal, estadual e municipal do partido. O aparelho partidário, voraz e expansionista, colonizou as estatais e os milhares de cargos públicos de confiança. O escândalo do "mensalão" ameaça o seu poder e o seu modo de vida. José Dirceu bombardeou sem cessar a casamata do Ministério da Fazenda, orientando a artilharia da esquerda do PT e do MST. Hoje, Palocci reage com uma contra-ofensiva arrasadora. O ministro da Fazenda é, nesse momento, o principal beneficiário do escândalo que abala a República. A meta da operação é cortar a ponte entre Lula e Dirceu, removendo o núcleo de  interesses da Fiesp do governo. As bombas detonadas por Gushiken e por outros aliados de Palocci contra Genoino, que personifica a máquina petista, e Delúbio, o homem de Dirceu, evidenciam o furor da batalha.

Na hora da verdade, as estratégias do PSDB e do PFL divergem. O primeiro manobra com esmero na preservação de Lula e de Palocci, apostando no lento desgaste do governo ou, ainda melhor, numa hipotética fusão com o pólo lulista, expurgado da máquina do PT. O segundo joga na implosão do governo, temendo ser deslocado para a periferia da política nacional. Dentro do PT, a guerra total seca a retórica das alas de esquerda, que se alinham instintivamente atrás de Dirceu. No cenário hipotético do racha, elas ofereceriam a mão-de-obra para a reconstrução do partido, sob o programa do empresariado paulista e a ornamentação discursiva do castrismo e do terceiro-mundismo.

Nada está escrito. A crise pode conduzir apenas à melancólica extinção da experiência lulista em 2006. Mas pode parir um novo sistema partidário no país.



Escrito por Antonio Alves às 03h49
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na roda

Este é o trecho do artigo citado por Jorge Viana no programa Roda Viva. Foi publicado em agosto de 1991, na revista Teoria & Debate. E está no livro “Artigos em Geral” (livrarias Nobel e Paim, 20 reais).

 

OS ESTRANGEIROS

 

Durante muito tempo sustentou-se, no Brasil, a visão de um "deserto amazônico" que precisava ser ocupado. Esse mito justificou a nova ocupação, nos anos 70, e o transporte para a região de milhares de famílias sem terra do sul do país. Uma concepção de desenvolvimento baseada na expansão da pecuária extensiva, da exploração madeireira e da chamada "fronteira agrícola" se impôs com a força de uma poderosa ideologia. O substrato político era dado pela doutrina militar da Segurança Nacional, sintetizada no slogan "integrar para não entregar". A floresta era apenas um empecilho ao progresso e a própria legislação até hoje considera o desmatamento uma "benfeitoria".

Quando, na década de 80, as pressões ambientalistas e os sucessivos fracassos econômicos forçaram os principais governos e organismos internacionais a considerar o meio ambiente uma questão estratégica, o Brasil foi pego na contramão. Sarney berrou bastante contra o perigo da "internacionalização da Amazônia", até ceder às pressões que aumentaram após o assassinato de Chico Mendes e, ao final de seu mandato, suspender os subsídios e incentivos fiscais à pecuária e decretar várias áreas de proteção ambiental.

A abordagem de Collor, bem a seu estilo, foi ruidosa e espetacular. Dinamitando pistas de pouso no garimpo e colocando o respeitado ecologista Lutzenberger na Secretaria de Meio Ambiente, o governo pretendeu antecipar-se às pressões. Ainda de acordo com seu estilo, no entanto, não colocou sob proteção legal um só hectare de floresta e esvaziou financeira e administrativamente o Incra, o Ibama e a Funai.

Tornado mais sutil o domínio militar na política para a Amazônia e, irreversivelmente, internacionalizado o debate, tudo encontra-se em aberto. A Amazônia é hoje a principal força e a principal fraqueza do Brasil na conferência do Rio em 92, um bilhete de entrada ou um cartão de expulsão do Brasil na "nova ordem internacional" que se esboça.

Parte das mudanças na política nacional e internacional para a Amazônia foi influenciada por acontecimentos no Acre. A luta dos povos da floresta e a importância dos aliados que conquistaram deram mais do que prêmios internacionais a Chico Mendes: ele e o movimento por ele liderado foram postos na condição de agentes de mudanças políticas e de interlocutores nas negociações internacionais. Assim é que o atraso do governo brasileiro na execução de um pequeno programa de defesa ambiental no Acre, o PMACI, faz com que o BID suspenda financiamentos para projetos bem maiores no centro-sul do país. No centro da discussão, está a construção de uma estrada para o Pacífico, cujo impacto ambiental e econômico gera preocupações e expectativas em Tóquio e Nova Iorque.

No Brasil, esse debate é recente. No Acre, já cansou. Para uma parcela dos trabalhadores acreanos, a preocupação com a internacionalização da Amazônia chega a ser risível. Afinal, foram companhias inglesas de navegação que trouxeram os nordestinos para povoarem os seringais, no final do século passado. A produção de borracha, feita num regime pré-capitalista semelhante à escravidão e apropriada no porto de Belém pelo mais avançado capital monopolista, sustentou o desenvolvimento da indústria automobilística na Europa e nos Estados Unidos.

O forte sentimento regionalista que existe no Acre é, portanto, o contraponto de uma internacionalização desde a origem, quando o espanhol Luis Galvez fundou o Estado Independente do Acre (ainda território boliviano) contra os interesses do Bolivian Syndicate americano. Hoje, a tentativa de reorganização da economia extrativista visa, mais uma vez, o mercado internacional. Os seringueiros de Xapuri montaram uma cooperativa com financiamento da Fundação Ford e vendem castanha para os Estados Unidos. Buscam o capital estrangeiro que, afinal, é o único que conhecem.

Mais estrangeiro, no entanto, é o chamado capital nacional, ilustre desconhecido na parte ocidental da Amazônia. O nacional-capitalismo chegou ao Acre com os militares, no início dos anos 70, com facilidades fiscais e empréstimo no banco. Foi apelidado de "paulista". Vinha falando em progresso, usava chapéu e botas de cano longo. Expulsou seringueiros e ateou fogo nos barracos. Matou sindicalistas, derrubou e queimou 15 % da floresta no vale dos rios Acre e Purus, onde se instalou. Não se trata, é claro, de preferir o patrão estrangeiro, mas apenas de mostrar que não se pode conferir título de nacionalidade a um setor de capital apenas porque é atrasado.



Escrito por Antonio Alves às 14h12
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