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Certamente reagindo às reclamação de alguns leitores, Mário Lima escreveu o texto que publico a seguir, insistindo nos termos do debate que temos realizado. Minha resposta vem logo abaixo.

 

Intervenção

 

Esta conversa que terminou desembocando num papo sobre o saber, iniciou-se com alguns comentários, lá atrás, sobre o PL. Depois da troca de alguns pontos, levantando o tema das políticas públicas, ocorreu uma intervenção de Letícia Mamed e do Daniel Santana reclamando a necessidade de que tal discussão se fizesse à luz de uma crítica do sistema como um todo. Concordo com a posição e, acredito, pelo que posso deduzir das intervenções e pelo que sei da sua história de vida, que também o Toinho concorda com a necessidade da crítica.

No andamento das intervenções, como costuma acontecer nesse tipo de diálogo, amigável, tranqüilo, paciente, sem disputas, mas apoiado no esforço de identificar convergências e pontos (ou portos) onde construir uma síntese adequada e conseqüente, tornou-se claro para mim um ponto essencial: o ponto de vista do Toinho. O que, até então, era algo meio confuso que cheguei a chamar de ironias, tornou-se evidente: a posição dele, hoje, resulta de um certo desencanto com a ciência. Sem identificar tal posição, nos primeiros momentos, a conversa ficava enrolada porque, nós assumíamos uma perspectiva crítica. Mas a crítica dele atingia, tanto a posição da Letícia quanto a mim e Daniel, mas eu não pude, no primeiro momento, identificar o teor da crítica.

Há quem não concorde com esse encaminhamento. Há quem se impaciente com essa busca de explicações, porque se apóiam nos fatos onde estaria toda a expressão da realidade. Há quem ache que discutir as questões da ameaça ambiental a partir da Filosofia, ou das Ciências Sociais em Geral é perda de tempo. Para muitos, a questão ambiental (ou questões ambientais?) é tema das ciências naturais – da biologia, da química ou mesmo da engenharia. Nisso esquecem que a crença (crença muitas das vezes como mero recurso de retórica) na ciência foi exatamente o que apoiou o avanço da destruição das bases naturais que hoje atinge dimensões planetárias. A cada elemento que foi sendo destruído acenou-se com melhores níveis de bem-estar social e uma solução científica para corrigir a cadeia de vida que ia sendo destroçada. Dizia-se e repete-se, até hoje, que isso é próprio do homem – ou seja, é da “natureza humana”.

Exemplos desse distanciamento de uma visão crítica (às vezes por mero ajustamentos de anseios pessoais – uma bolsa de estudos, um emprego etc..) estão ao nosso entorno. Veja quando se fala em dar voz à coletividade: e aí cria-se um colegiado – mera representação. E sobre o que se decide? Sobre o que de fato decidimos? O que cria realmente efeitos concretos, alterando as relações de vida, as relações sociais, as relações de produção da sociedade? Quem de nós, ou em quanto nós – nós coletividade que denominamos de Nação – somos capazes de decidir sobre assuntos fundamentais na dimensão da economia? E não me neguem reconhecer que o uso dos fatores produtivos é uma questão socialmente relevante. Ou seja, interessa a todos os membros da comunidade – hoje, poderemos até mesmo dizer: comunidade planetária.

Quando o governo fala em desobrigar a estruturas produtivas, ou flexibilizar mercados, ou desregulamentar mercados, mente. Fala de categorias que não tem correlação com o mundo real. Por quê? Porque quanto desregulamenta deixa, de fato, que as coisas andem segundo as regras das grandes corporações internacionalizadas. Quando desregulamentamos, o que de fato fazemos é transferir das instâncias do que deveria ser o coração da área de conflitos da sociedade – o Estado – para mãos de alguns técnicos que cuidam das estratégias empresariais de algum conglomerado econômico.

Até que gostaria de poder chegar a esses resultados (ou nem chegar a eles) sem o recurso do conhecimento crítico da realidade social. Sinceramente, gostaria de poder traçar uma estratégia de reação apoiado nas formas mais elementares da realidade social. Gostaria de trilhar o caminho que Toinho propõe e estar nas noites que restam de presença aqui em alguma cerimônia de pajelança contribuindo para harmonizar o mundo e o mundo dos homens. Nenhuma ironia, caro Toinho. Nenhuma. As armas da crítica da sociedade, da economia é o que entendo restar-me na luta pela emancipação.

 

...hoje, depois da publicação dos resultados da última avaliação do desmatamento da Amazônia, é um dia particularmente angustiado para mim. A fotografia indicando os vazios no espaço amazônico é alarmante.

 

PS - esta mensagem não significa que abdico do encaminhamento que estávamos dando a conversa. Pelo que entendi, Toinho concorda com isso.



Escrito por Antonio Alves às 16h15
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pajelanças

Cachimbos diferentes

 

            Mário, fique tranquilo quanto à continuidade do debate. Separei este blog para isso. Queremos debater o PL das Florestas, mas não vejo problema em nos demorarmos nas questões “gerais”, se julgarmos necessário. Fico contente de você demonstrar disposição de trocar idéias comigo e com os demais frequentadores deste modesto sítio virtual. Gostaria que nosso debate fosse acompanhado por seus ex-alunos e colegas professores do curso de Economia da UFAC. Mas muitos estão na administração pública, onde ninguém quer saber de reflexão, debate, teoria. Todo mundo acha que ser “competente” é ser apressado, estressado e jamais ter tempo para conversar sobre princípios e métodos. Só dou razão às reclamações dos leitores amigos porque são de outra natureza: de fato, andei descuidando de alimentar o espírito (da coisa) com a poesia nossa de cada dia. Vou fazê-lo, sem interromper a nossa conversa.

            Vamos direto ao ponto: ainda não ficou claro para você qual é meu “ponto” de vista, se é que tenho um. Posso lhe assegurar que não estou desencantado com a ciência. Sou um crítico feroz desse fetiche, que você chama de crença na ciência, e concordo com o que você escreveu: isso leva a uma passividade diante da destruição, como se a natureza (humana ou não) fosse uma máquina que pudesse ser consertada quando quebrasse. Mas a ciência, ela mesma, é algo que me “encanta”. Tenho uma particular predileção pela psicologia, e meu preferido é Jung (anatematizado, entretanto, pelos seus próprios colegas, que não o consideram científico). Apesar disso, não gosto da maioria dos que se dizem junguianos, acho-os superficiais. É sempre assim, os seguidores não estão à altura do mestre; Marx dizia que não era marxista. Também me agrada a física, embora não a conheça realmente. Mas me informei do debate filosófico proporcionado pela física quântica e achei fascinante. De resto, sou curioso e atento a todos os artigos e reportagens sobre qualquer avanço em qualquer área do conhecimento. E, é claro, a escolinha do marxismo deu-me o beabá de história, economia, sociologia e política.

            Confesso uma certa impaciência com essas aí, as chamadas ciências “sociais”. Muitos fatores contribuem para essa impaciência. Um deles é a posição dogmática da maioria dos marxistas que conheci: eles não vêem que o materialismo histórico é uma ciência, pensam que é a ciência, a explicação final para tudo. Ora, a maior parte do instrumental teórico marxista é anterior a Freud e Einstein. O marxismo é um humanismo do século 19, importante, cheio de descobertas fundamentais, desenvolveu um excelente método de investigação das relações sociais etc etc. Mas é só, e já é muito. Os crentes do marxismo, no entanto, transformaram-no numa espécie de “ópio do povo”, recitando seus versículos em toda parte e lançando anátemas contra os infiéis.

            Quanto à pajelança, é simples. Todo mundo tem seus rituais. Os acadêmicos, por exemplo, fazem o bailado dos conceitos (“balé”, segundo Paulo Freire) nos congressos, seminários e outros torneios de feitiçaria racionalista. Ali demonstram seus poderes e refazem a hierarquia de suas irmandades, contam histórias nas mesas redondas, conjuram as forças da ciência, lançam bênçãos e maldições, celebram a paz e declaram as guerras. Os pajés da floresta fazem a mesma coisa, com efeitos muito semelhantes em escala global, mas com uma grande diferença: o tabaco que usam em seus cachimbos é de qualidade muito superior ao da cidade. Ah, e as histórias que contam ao redor da fogueira são muito mais poéticas.



Escrito por Antonio Alves às 16h12
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