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A ciência do diálogo

 

Republico o diálogo selecionado por Mário Lima, agora com minhas respostas ao final de cada bloco. Acho que vamos, aos poucos, explicitando melhor nossas posições. Talvez, nas respostas, eu tenha “apelado” um pouco para a experiência pessoal. Mas é que ela é meu ponto de partida e de chegada. Definitivamente, a objetividade não é minha praia.

 

TOINHO: "Obviamente, o homem comum a que Caetano se refere, ele mesmo, assim como o “analfabeto que fazia sínteses” a que me referi, não é nenhum desses patetas que ficam repetindo as bobagens que vêem na televisão."

 

MÁRIO: O homem comum a que me refiro é aquele que labora na construção das relações humanas em geral. A tal estória dos meios de comunicação - televisão - é componente da realidade vivida e deve ser compreendida como veículo de transmissão operando em benefício dos mecanismos de encobrimento. Esses mecanismos laboram para rebaixar os níveis de consciência da sociedade, reafirmando a necessidade da ação da ciência. Marx nos lembra a propósito que se a realidade se mostrasse como de fato é tornaria ociosa a ação da ciência. Ou seja, se o mundo dos homens não operasse formulando simulacros, encobrindo seus fundamentos, a possibilidade da crítica estaria diretamente ligada ao fazer na cotidianidade. Nisso está a idéia de "inconsciência" a que me referi. Veja que assistimos com muita freqüência declarações de trabalhadores em benefício do fortalecimento do lucro das empresas. Até passeatas de trabalhadores são realizadas na Av. Paulista em defesa da queda dos impostos, da taxa de juros, etc. Ou seja, tal comportamento dá por assentado que os interesses empresariais são os mesmos da classe trabalhadora. Hoje, parte da classe trabalhadora brasileira defenda a "flexibilização do salário", "flexibilização das leis trabalhistas", ou seja, propugna pela destruição de resultados da luta operária. Não se trata de considerar, a partir daí, que se considere esse homem comum um idiota - pateta nos termos propostos pela leitura que o Toinho faz da minha mensagem: exatamente o oposto, quando se pensa que o saber resulta exatamente da ação humana. Nessa linha de raciocínio poderemos chegar a uma conclusão fundamental: as mudanças que possam ser demandadas ocorrerão pelas mãos desse homem comum. Ou seja, longe está da minha posição o desconhecimento da capacidade de "insubordinação do homem comum que Mário não consegue ver...". Por outro lado, não se trata de vê-lo "mergulhado no cotidiano, ‘inconsciente’, a realizar atos repetitivos", mas que na construção do cotidiano opera com categorias sem a consideração de seus fundamentos. Isso é uma constatação. As populações inglesas levaram oito séculos para progredir dos inícios do feudalismo no nono século até a sua vitoriosa revolução burguesa no século dezessete.

             Condorcet, nos fala a propósito de uma análise da Revolução francesa que “...a história da política, como a da filosofia ou da ciência, tem sido a história de alguns poucos indivíduos: aqueles que constituem realmente a raça humana, a vasta massa de famílias vivendo na maioria com os frutos do seu trabalho, tem sido esquecida... somente as lideranças são olhados pelos historiadores”.  

            O marxismo constrói sobre esse insight a história que é resultado das ações coletivas de multidões, de esforços de massa estendidos sobre prolongados períodos dentro de uma moldura formada pelas forças produtivas recebidas e ampliadas e modos de produção que criaram, construíram e revolucionaram. Não as elites mas pessoas que tenham sustentado a história, alternando-se nas novas direções nos momentos críticos de mudanças de rumo e ajustando a humanidade para cima passa a passo.

A história não tem sido gerada, nem tem seus cursos guiados por idéias preconcebidas. Os sistemas sociais não tem sido construídos por arquitetos com projetos nas mãos. A história não procede de acordo com qualquer plano. As formações sócio-econômicas crescem das forças produtivas à mão; seus membros moldaram suas relações, costumes, instituições e idéias de acordo com a sua organização do trabalho.

           A natureza humana não pode explicar o curso dos eventos ou as características da vida social. As mudanças nas condições de vida e o trabalho estão na base do fazer e re-fazer da natureza humana.

Escrito por Antonio Alves às 01h10
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Resposta

          Acho que as formulações ficaram mais claras e podemos desfazer mal-entendidos com relação aos homens comuns, analfabetos que fazem sínteses etc. Até concordo que existe essa “inconsciência” generalizada nos atos cotidianos. Minha discordância permanece, no entanto, com relação à ciência. Se tomarmos a palavra em seu uso coloquial (“ter ciência de”), estou de pleno acordo: ela é o facho luminoso da consciência. Mas há uma Ciência, assim mesmo com maiúscula, que as pessoas pensam ser a única via para superar a inconsciência, quando é apenas uma forma metódica de inconsciência. Um dos exemplos mais recentes que vi desta superstição moderna foi a posição sacerdotal em que a mídia colocou os “cientistas” no debate sobre a questão dos transgênicos. Governo e Congresso embarcaram, dando plenos poderes à CNTBIO. Vi, num programa de televisão em que se debatia o assunto, um desses gênios: óculos fundo de garrafa, fala monótona, gestos mecânicos. A apresentadora perguntou o que ele tinha a dizer para os cidadãos consumidores, que estavam assustados e não compreendiam bem o que os transgênicos poderiam causar à saúde e ao ambiente. Ele respondeu, olhando fixamente para a câmera, com sua voz metálica: “confiem na ciência, confiem nos cientistas”. Pra mim, está bem claro que esse sujeito confina sua ciência no laboratório e permanece bastante inconsciente em todas as outras esferas de sua vida. Bem, esse exemplo é fácil e até caricatural, concordo. Mas não creio que os cientistas sociais sejam muito diferentes. Conheço alguns que são capazes de dar uma aula magnífica sobre a ideologia nas relações sociais e, na volta para casa, enfiar a mão na buzina e xingar os outros motoristas, no trânsito. Outra caricatura? Talvez, mas então alguém, por favor, me apresente um cientista que viva a ciência, não a use como um instrumento, no horário de trabalho, mas respire, coma, ame, durma e acorde com ciência.

          Heráclito. há 2.500 anos, já falava sobre essa “inconsciência”. Dizia que os homens estavam dormindo. Coisa parecida dizem os mestres espirituais do Oriente. Os gregos indicaram a filosofia, os orientais a meditação. Parece mesmo haver várias formas de “despertar”, de ter consciência (de cada detalhe e do todo, do instante e da eternidade, do individual e do coletivo), mas ouvi falar de poucos cientistas que chegaram a esse grau de evolução. A Arte parece ser uma via mais ampla, mas os artistas também demonstram uma grande consciência quando estão criando suas obras, pintando um quadro, compondo uma música, escrevendo uma peça, e quando saem do ambiente artístico para o cotidiano viram pessoas comuns, até mais inconscientes que a maioria. Também são poucos os artistas “despertos”. O que é, então, a Ciência? Assim como a Arte, é atividade parcial, que fragmenta e setoriza o saber. Pra começar, o cientista é um “trabalhador intelectual” que, na maioria das vezes, obedece à separação fundamental da civilização ocidental entre corpo e mente. E ainda se orgulha disso, embora não diga, porque às vezes nem tem consciência de sua própria vaidade. Mas é com essa cisão em sua personalidade e com a identidade que tece em torno dela, sem notar, que labora na construção do cotidiano... como um homem comum. 



Escrito por Antonio Alves às 00h58
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pessoal e intransferível

TOINHO: "As frases revelam a experiência pessoal de quem se livrou das imposições e limites de um método racionalista e pôde olhar o mundo com mais liberdade."

 

MÁRIO: Livrou-se de quais imposições? Acredito mais correto considerar seus esforços como uma tentativa de transição para uma visão de mundo. A posição crítica em relação a ciência corresponde ao abandono de uma visão crítica da realidade? Pelo que posso inferir de toda a conversa (mensagens no blog, artigos, revistas e jornais e notícias sobre tua participação política)  não. Essa perspectiva crítica é resultado de uma mudança nos níveis de consciência - no seu caso pessoal. O fato de você aceitar o saber não metódico de um pajé ou de uma “rezadeira” não te faz retornar para o lado - para a posição - do "homem comum".  

 

Resposta

          Livrei-me, por exemplo, de uma imposição social, moral, política, que pesava sobre minha cabeça, expressa na frase “o real é racional”. O sonho, o transe, o delírio, a intuição, a telepatia, tudo isso era considerado pecado pela igrejinha intelectual da esquerda. Chutei o pau da barraca. “Desbundei”, como dizíamos nos anos 70. Hoje, não apenas “aceito” o saber não-metódico do pajé e da rezadeira, eu rezo e sou aprendiz de pajé. Aliás, não estou certo de que se possa chamar esses saberes de “não-metódicos”, eles certamente tem lá seus métodos. Tem certas coisas que sei –e tenho certeza- porque me foram reveladas por essas estranhas ciências que a Ciência não conhece. Livrei-me, por exemplo, dos estreitos limites do materialismo –e conheço agora a matéria muito mais e melhor do que quando achava que ela era o fundamento da realidade. Não sou ainda livre, bem sei; não estou totalmente desperto; estou, de fato, em transição. Não pretendo deixar de ser “crítico” (aliás, a primeira lição espiritual que recebi foi a de que deveria conservar minha consciência crítica), mas um dia ainda pretendo ter a paz interior de certos homens comuns que conheci.

Escrito por Antonio Alves às 00h56
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nem bem, nem mal

TOINHO: "Só o cientista, o próprio Marx, que tem consciência do bem e do mal, ou seja, da diferença entre “sujeito” e “objeto”, este sim, de posse de um saber metódico, pode desvendar os rastros que o homem comum vai encobrindo. Grande conversa, mas o saber metódico não livra ninguém da inconsciência."

 

MÁRIO: Se resultado da ciência decair para esse maniqueísmo - bem e mal - se confundirá com dimensões da religião. A História nos ensina o quanto isso pode custar para a humanidade. O saber eleva os níveis de consciência sim e os processos de encobrimento dos fundamentos são processos sociais. Tem algo mais enraizado na consciência das populações do terceiro mundo do que a idéia de que nossas nações trilharão os caminhos da prosperidade dos países centrais? No entanto a brecha entre ricos e pobres só aumenta com o passar do tempo. Isso mesmo quando a internacionalização do capital, a expansão das corporações assume dimensões planetárias. Não se trata, por outro lado, de achar que quando se fala em ciência tenhamos chegado a um campo plano, homogêneo de significados, etc. etc. Nada mais equivocado. A história da ciência é expressão de um campo deflagrado, onde se inscrevem momentos fundamentais da construção das ideologias, as quais, também, podem ser encaradas nos mecanismos de encobrimento da realidade mais profunda. A afirmação da realidade como meros fatos - interessam apenas os fatos - é uma marca disso. Dessa cisão no interior do campo da ciência, tenho certeza, tens consciência.

Depois dessa última mensagem, acredito, posso afirmar que o teu desencanto com o "saber metódico" como um todo, a meu juízo, é um equívoco. Ou, é um exagero. Até mesmo porque não podes te despir da acumulação de saber para a qual está, certamente, atento. 

Sintetizando um pouco, para buscar uma finalização para essa intervenção. O que me dá certeza das minhas posições é, exatamente, o fato de me postar em defesa do homem comum. Entretanto, não faço essa defesa desde uma perspectiva romântica. Mas visando contribuir para a superação da pré-história do homem, contribuir para a emancipação. Nisso está minha perspectiva da ação política. 

 ...e ainda há tanto o que conversar. (parafraseando Plácido de Castro, julgando verdadeira a frase no monumento na "praça do quartel".)

 

Resposta

Mas a ciência é filha desse maniqueísmo –bem e mal- que nela se disfarça da separação entre sujeito e objeto. Claro, estou falando da Ciência, aquela, que também é filha do tempo e da história etc. etc. e que causou à humanidade tantas perdas e danos quanto as religiões. Ainda bem que a ciência evoluiu até chegar ao “princípio da indeterminação”, de Heisenberg, ao inconsciente coletivo, de Jung, e tantos outros insights maravilhosos deste fascinante século vinte que tivemos o prazer de ver terminar. As religiões proporcionaram à humanidade um saber ainda mais amplo e profundo, mas evoluem pouco e lentamente, isso é de sua natureza, não há o que lamentar. Como vês, não estou desencantado com o “saber metódico”, apenas não gosto de me fixar em um método específico. Se tivesse um método preferido, diria que é o da crônica; melhor ainda, o método da conversa, em que vamos arrodeando um assunto, ouvindo, falando, perguntando, respondendo, num entendimento progressivo que incorpora os esquecimentos, as falhas, os raciocínios mal desenvolvidos, junta tudo com as lembranças, os acertos, um pouco de rigor lógico e uma pitada de humor para, no final, concluir que “ainda há tanto o que conversar”. Também não sei se é verdadeira a frase que está no monumento; mas se o Plácido não a disse, deveria ter dito.



Escrito por Antonio Alves às 00h54
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O homem comum

 

            Mário selecionou duas frases minhas, mas acabou comentando apenas uma. Vou repetir todo o trecho, para retomar o fio do pensamento. “Sinto muito, mas considero, como Gilberto Gil, que ‘a raça humana é uma semana do trabalho de Deus’. Já vi três mil anos se passarem em três segundos. Conheci analfabetos que nunca souberam da existência de Marx e faziam sínteses mais rápidas, totalizadoras, dinâmicas e dialéticas que as dele. Percebi, finalmente, que a história é apenas uma história”. As frases revelam a experiência pessoal de quem se livrou das imposições e limites de um método racionalista e pôde olhar o mundo com mais liberdade. Dessa forma, concluo que a história contada pelo cientista é apenas uma das várias histórias, que posso contar a minha, com meus erros e acertos, e terá a mesma validade. E, para continuar citando meus teóricos prediletos, recorro a Caetano Veloso: “Sou um homem comum/ qualquer um/ enganando entre a dor e o prazer./ Hei de viver e morrer como um homem comum,/ mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão/ que às vezes assisto a guerras e festas imensas,/ sei voar e tenho as fibras tensas/ e sou Um”.

            Obviamente, o homem comum a que Caetano se refere, ele mesmo, assim como o “analfabeto que fazia sínteses” a que me referi, não é nenhum desses patetas que ficam repetindo as bobagens que vêem na televisão. É o homem comum que se sabe comum, que sabe que seu saber é comum, que valida seu saber justamente nessa comunidade e não depende nem se subordina a qualquer estatuto científico que pretenda fornecer certificado da verdade.

É essa insubordinação do homem comum que Mário não consegue ver, pois o descreve como estando mergulhado no cotidiano, “inconsciente”, a realizar atos repetitivos. Está bem que o homem comum seja assim, coitado, ele não tem obrigação de saber que está manipulando conceitos. Só o cientista, o próprio Marx, que tem consciência do bem e do mal, ou seja, da diferença entre “sujeito” e “objeto”, este sim, de posse de um saber metódico, pode desvendar os rastros que o homem comum vai encobrindo. Grande conversa, mas o saber metódico não livra ninguém da inconsciência. Muitas vezes é exercido de forma tão inconsciente que serve para criar divisões de casta: os “cientistas” pensam que são superiores aos homens comuns e muito superiores aos analfabetos. Na verdade, decifram apenas algumas relações e deixam de ver tantas outras...

Mas, de sua pretensão, nasce a ilusão da objetividade. Nasce o sutil auto-engano de achar que a história contada com “meu” método é a única verdadeira. Nasce a inconsciência de um sistema fechado e auto-explicativo, feito de palavras e expressões que se encadeiam automaticamente: sujeito, objeto, material, abstrato, concreto, dialético, historicamente determinado... E quem está fora dessa lógica, um pajé ashaninka, por exemplo? Ah, é alguém que conta “mitos”, que não desvenda relações conceituais, não tem acesso à verdade, está fora da realidade.

Pra mim, Marx é como um médico: entende o funcionamento do corpo humano, sabe diagnosticar doenças, conhece medicamentos, ou seja, é alguém muito inteligente e útil. Mas quando preciso de sínteses conceituais mais elaboradas sobre o significado da vida, quando quero desvendar relações mais profundas sobre a alma humana (não sobre dinheiro, mercadorias e outras relações “sociais”), o médico não me serve: tenho que encontrar um rezador analfabeto, vazio de conhecimento e cheio de sabedoria. Graças a Deus, tenho encontrado, ao longo de minha vida, alguns desses abençoados homens comuns.



Escrito por Antonio Alves às 18h43
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mais Mário

No rastro dos conceitos

 

[Mário Lima comenta as frases finais do ítem I de meu texto anterior (“Meus pulos”, na mensagem “menos Marx”). Publico agora, respondo amanhã. Tá boa, a embolada.]

 

“Conheci analfabetos que nunca souberam da existência de Marx e faziam sínteses mais rápidas, totalizadoras, dinâmicas e dialéticas que as dele. Percebi, finalmente, que a história é apenas uma história”.

 

Guardadas o exagero criado pela imagem de disputa, quase a idéia de um desafio a lá repente nordestino (agora seria entre rapers, tst, tst, tst...), essas duas frases merecem algum comentário, como sempre, limitado. (Como o Toinho já disse, o que me faz chegar à impaciência com a impossibilidade de melhor dissertar, quando somos instigados por muitas proposições - ou provocações, finas ironias que surgem na tela).

Voltemos a primeira frase que retirei do texto. Aqui o Toinho cuida de inverter (o que não é bom) uma relação fundamental quando se trata de fundar uma metodologia a partir da obra de Marx.. Não se trata de esperar que o homem comum retire de Marx os fundamentos da compreensão que elabora do seu viver. Mas, Marx sim, deve estar em sintonia com o fazer do homem comum. Apoiado nos resultado de Hegel, que toma da relação sujeito objeto como movimento, Marx é que deve saber do “sujeito” da ação em relação ao “objeto” das ações que formulam seu viver, sua prática. As categorias, tomadas como forma de ser, são cotidianamente manipuladas pelo homem comum. Esse uso “inconsciente” dos conceitos é forma apropriada ao encaminhamento dos atos da vida cotidiana. Aí, também, se inscreve um ponto crucial para compreensão e da necessidade do saber metódico: o uso diário leva ao esquecimento de movimentos mediadores que “acabou por transformar o mundo das ações dos homens numa regularidade reiterada diariamente pelo fazer das mesmas coisas: comer, dormir, acordar, trabalhar, descansar e dormir, para repetir tudo o que fez antes”.

Diariamente, todos nós operamos com dinheiro, usamos a moeda do nosso país para realizar muitas das ações necessárias à nossa manutenção e das nossas famílias. Mas, para a grande maioria essa coisa chamada moeda é vista em sua materialidade, uma coisa que usamos para adquirir bens destinados a nossa sobrevivência. Muito distante dessas operações diárias está o fato de que essa “coisa”, de fato, é um conceito expressando uma determinada forma de relacionamento entre os homens. Trata-se da expressão de relações sociais historicamente determinadas e “essa coisa” é expressão do valor das mercadorias.

Na Ciência da Lógica, Hegel nos chama a atenção para o fato de a matéria sobre a qual labora não é algo inventado, “senão o que originariamente produziu e se produz no domínio do espírito vivo, conteúdo que se tornou mundo, mundo externo e interno da consciência – isto é, de que seu conteúdo é a realidade [efetiva]...”. A produção a que se refere a frase é um processo que denominamos de prática e o produto é, exatamente, o homem a que se refere o Toinho. Cabe ao saber metódico captar essa produção, como realiza Marx, e buscar, aí sim, as sínteses numa perspectiva da realidade. Isso, pelo menos, enquanto o desenrolar do mundo dos homens seja, correspondentemente, um processo de encobrimentos dos rastros dos processos de produção das categorias.



Escrito por Antonio Alves às 04h14
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mais um na roda

Tenho acompanhado (mais à distância do que gostaria) os papos que tem rolado em seu blog. Não sou muito dado à erudição, mas vou aqui jogar alguns gravetos nessa fogueira. Ela está muito boa para passar desapercebida.

 

Desenvolvimento

 

Geraldo Alves

 

O conceito de desenvolvimento, com tantas variáveis (industrial, social, sustentável etc), traz embutida a idéia de que onde nos encontramos não está legal e, portanto, precisamos de mudanças. Queremos mais. Necessitamos superar as dificuldades enfrentadas.

Em um primeiro momento esta idéia até parece razoável. Afinal de contas, quem não gostaria de deixar para trás algumas limitações? Olhamos para trás e vemos o que já foi ultrapassado. Olhamos para frente (seja para sociedades mais "desenvolvidas" ou para o que estas poderão vir a conquistar) e almejamos que todos possam estar incluídos nesta realidade. Até aqui, nada de novo. Todo mundo pensa desse jeito. Quem defenderia o contrário? Até mesmo os ecologistas mais “vermelhos” adoram um ar condicionado (inclusive nos veículos). Internet? Como viver sem ela? Mas então, o que há de errado? Por que não pode ser assim: todo mundo cresce, se desenvolve, as dificuldades são superadas e viveremos felizes para sempre...?

O problema aparece quando observamos que este modelo de sociedade é incompatível com a capacidade de suporte do planeta. Mas isto também já é conhecido. O fato é que, apesar de já estar comprovada a limitada capacidade de suporte do planeta, esta parece não ser considerada quando se trata  de analisar as expectativas da sociedade. Há, desse modo, uma incompatibilidade entre o modelo de sociedade que almejamos e aquilo que o planeta pode suportar. O erro está no fato dessa incompatibilidade não ser considerada, quando se está falando de desenvolvimento. O capitalismo nos apresenta aquilo que poderemos adquirir, sem evidenciar as limitações para tal objetivo. Uma vez assimilada a idéia, passamos a ignorar as conseqüências dessa opção. Há dois caminhos possíveis: ou abandonamos (mundialmente) este modelo de sociedade e procuramos outras formas menos impactantes de nos relacionarmos com os recursos naturais, ou abandonamos a idéia de preservar o planeta. Neste caso, vamos continuar crescendo até onde o planeta suportar e depois morremos todos, gordos e ofegantes em um planeta asfixiado por nossas ações.



Escrito por Antonio Alves às 03h46
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