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direto ao ponto

Conforme prometido, aqui está (dividido em dois blocos, este e o seguinte) o texto da jornalista Charlene Carvalho, uma crônica em que revela suas ligações familiares e afetivas com a floresta e questiona os possíveis resultados do Projeto de Lei das Florestas Públicas. Leiamos, pensemos, comentemos...

 

D(i)evagar, mas andando...

 

Charlene Carvalho

 

Reconheço meu parco conhecimento sobre o Projeto de Lei das Florestas Públicas. Li, mas ainda se faz necessário digeri-lo melhor, como todos aqui concordam. Há muitos questionamentos a serem feitos a cada uma das propostas ali apresentadas; mas eu, como leiga que sou no debate do método posto aqui por Letícia, Mário e Toinho, vou tentar discutir a questão do lado empírico mesmo, que é onde posso andar melhor. A fundamentação teórica, seja marxiana, weberiana, hegeliana ou qualquer outra, me escapa à competência.

Dito isto, vamos ao que interessa.  Tenho forte rejeição ao manejo florestal. Tenho-o, em muitos casos, como uma versão moderna da derrubada. Tal qual mudaram o discurso – e não o método – na questão do desenvolvimento sustentável, receio que o que Toinho colocou em seus comentários dos comentários do Mário seja extremamente pertinente, quando diz que acha uma ilusão querer legalizar as ilegalidades tradicionalmente praticadas pelos madeireiros.

Também acho que o cara vai ter duas, três firmas legais e vai continuar na ilegalidade, usando essas empresas de fachada. Aliás, já há fortes suspeitas de casos assim na Amazônia. Quanto à grande mudança, acho-a utópica, muito distante de todos nós – a maioria pensa mesmo é em manter a internet, a hidromassagem, o carro novo, um bom salário, viver bem etc. Este é um ponto. E a partir dele, vamos adiante.

O outro é o circuito virtuoso, no qual não mantenho nenhuma fé. Sabe quando um madeireiro, ou um capitalista, como diria Letícia, vai criar condições para que o pequeno produtor que vive na floresta, o seringueiro, o índio tenha boas condições de vida? Nunca! Por que? Simples: o madeireiro não tem o menor interesse nessa melhoria – como iria explorá-lo, depois? E o Estado tem ainda menos interesse em criar políticas que garantam uma vida digna aos seus cidadãos (como ficariam nas eleições sem que ninguém precisasse de telha, tijolo, sacolão, gasolina, motor pra canoa?) É uma visão simplista, claro, mas teorizar sobre isso é chover no molhado. Não há nenhum inocente puro e besta (creio eu) circulando por aqui. Ou há?

Toinho colocou a questão das ilhas de produção, dos projetos pilotos das ONG’s. Aqui quero entrar realmente no debate -de maneira empírica, lógico. Tenho um privilégio de poucos: conhecer bem o Acre. De Assis Brasil a Thaumaturgo, com exceção de Jordão. Já estive em muitos lugares. Andei por rios muitas vezes navegados. E é por essas andanças que o PL me preocupa.

Por onde andei sempre encontrei gente. Muita gente. E andei bem. Todos aqui sabem que é ilusório dizer que nossas florestas são inabitadas. Ao contrário. Mas como vive essa gente? Alguns mais ou menos, outros mal, alguns bem e muitos tentando encontrar o melhor caminho para se manter na floresta.

Escrito por Antonio Alves às 17h19
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continuando

Cito aqui o caso de uma irmã de minha mãe que mora ali pertinho da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema. Tem quatro filhos. O mais novo nasceu faz seis meses. O médico detectou – lá em Sena Madureira mesmo – que tem síndrome de Down. Vai ser difícil cuidar dele na floresta, mas talvez mais fácil que na cidade. Vamos ver como fica, mas este não é o ponto em questão.

Minha tia, seu marido e os filhos moram em um bom pedaço de terra. Terra deles. Há peixe abundante, um bom roçado, algumas vaquinhas para garantir o leite das crianças. Sua filha mais velha, minha prima, já casou e mora pertinho. A outra continua em casa. É quem cuida da criação. Pense numa mulher esperta! Cuida dos bezerros, faz a doma. Uma coisa. E ainda estuda. Pouco, mas estuda.

O trabalho lá, ao longo dos anos, permitiu ao meu tio comprar um bom batelão com motor potente. Se morasse na cidade -para quem não conhece seringal– o que ele tem se compara a uma mitsubishi, uma nissan com ar condicionado – isso sem contar a canoa para pesca e para visitar a vizinhança. A comunicação é rápida e eficiente. Via Difusora ou na rádio de Sena. É só mandar uma mensagem e pronto. Quando comprou o barco, mandou avisar a parentada: quando quiser vir pra cá é só mandar a mensagem que vou buscar em dia e hora marcado no porto de Sena. A gente, claro, divide o combustível. Lá,no meio da floresta, vivem bem.

Criaram e criam os filhos e lhes dão estrutura para sobreviver dignamente. Meu tio sempre trabalhou na floresta. Voltou pra lá quando casou e tem uma vida digna. Será que teria as mesmas condições de sobrevivência na cidade? Aqui o conhecimento que tem da comida da paca, da pegada da onça, do revirar das folhas das árvores para saber se vai chover, se o verão vai ser longo ou curto, lhe serviria pra quê? Teria seu barco?

Por que tanta divagação? Porque muito me preocupa o PL das Florestas Públicas a concessão de áreas para exploração madeireira, quer dizer, para o manejo – seja ele comunitário ou empresarial. Os crédulos dirão que há um artigo na lei que garante que não haverá exploração em áreas habitadas. Por esse preceito, no Acre não haverá manejo empresarial, certo?

Sim porque se a nossa floresta é toda habitada – por índios, seringueiros, posseiros – por aqui só cabe o manejo comunitário e se for o caso. Mas, alguém acredita sinceramente nisso? (Tu, Toinho, acreditas que isso seja possível?) Como iremos contemporizar? Como garantir aos povos que vivem nas nossas florestas o direito à sua propriedade, sua posse?

Digo isso ressaltando o aspecto de que, no seringal, na floresta, o sentido de tempo e espaço é muito diferente da cidade. Uma colocação tem sua dimensão territorial limitada pela ocupação, levando em conta os mananciais de água – igarapés- as árvores a serem usadas para derrubada – para construir casa, casa de farinha, suprir as necessidades de madeira da família – respeitando as estradas de seringa, a área de caça e pesca, a criação de porco, galinha...

Uma outra tia (ela mesma afirma ser como jabuti: embora morando forçosamente na cidade, se solta, volta pra floresta) diz que cerca de porco é bala, por causa das confusões que sempre existem entre vizinhos nas colocações por conta da criação e do roçado. Qual cerca vai garantir ao seringueiro, ao posseiro, que os espaços da sua colocação sejam preservados, mantendo assim sua cultura, sua tradição e, o que é mais importante, a sua terra? Há compatibilidade entre as tradições culturais do povo que vive na floresta com esse projeto e o manejo, ainda que “comunitário”?

E depois do manejo? Como ficarão as nascentes? E a área da caça, como delimitar que um veado, um porquinho do mato, uma anta circule só num determinado quadrante estipulado por um burocrata do Incra ou do Ibama? Entende o que quero dizer? Há vida após o PL das Florestas para as tradições do nosso povo que vive no Purus, no Moa, no Crôa, no Tejo, no Macauã, no Breu, no Paraná dos Moura?

Eu acredito na Marina, sabe? Ela foi minha professora e a conheço há tempo suficiente para saber do seu caráter, da sua idoneidade e da sua vontade de garantir melhores condições de vida para os amazônidas. Mas ela, tal qual João Batista, clama no deserto e temo que quando forem reconhecer seu clamor seja tarde demais. Hoje amamos e somos gratos ao profeta do deserto que comia gafanhotos, mas ele foi barbaramente perseguido por Roma e teve sua cabeça servida numa bandeja. Não quero que isso aconteça com a Marina, lógico, mas imagino sua angústia diante da situação.

Por fim, concordo com o Élson Martins quando diz que o PL das Florestas é bom pro Pará, mas não é bom para o Acre. A lei tende a ser homogênea. Como garantir as diversidades, as peculiaridades de cada lugar sem prejudicar o cidadão que vive na floresta e, o que é mais importante, garantir a preservação da floresta e dos homens que nela vivem? Há futuro para nós? Ou será como aquela frase de cemitério que dá nome a um documentário belíssimo: nós que aqui estamos por vós esperamos?

Escrevi demais, não? É que eu falo muito, escrevo mais ainda. Cada vez que olho o texto lembro que esqueci algo. Fico por aqui. Aguardo resposta.



Escrito por Antonio Alves às 17h15
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"aparelho" virtual

Conversando num canto sossegado

 

            Trouxe para cá os textos de Mário Lima e Letícia Mamed, com minhas respostas, porque já configuravam uma conversa que necessitava de espaço adequado. Estão todos aí de baixo pra cima, na sequência. Logo aí abaixo o leitor encontra o novo texto do Mário e, a seguir, acrescentei minha réplica. Amanhã publico um texto da Charlene, que faz questionamentos mais próximos ao PL das Florestas, que, afinal, é o motivo inicial de toda essa conversa.

Vamos fazer esse debate num blog próprio. Sem prejuízo de outros assuntos, que continuarão a ser tratados n’o espírito da coisa, aqui vem “quem tem negócio”, como dizem os acreanos velhos. Quem quiser entrar na roda, mande sua contribuição para textosdoespirito@uol.com.br ou para oespiritodacoisa@uol.com.br e pronto, está dentro.



Escrito por Antonio Alves às 16h46
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mais Marx

Mário comenta "provocações" 

(I) O Toinho diz que "rever princípios e premissas para dialogar" considerando o campo marxista, como proposto pela Letícia. Isso como resultado de um afastamento deliberado assumido em relação ao marxismo. Lembrando as posições do grupo político ao qual um Toinho ativista se filiava, acredito que suas posições atuais indicam que o afastamento foi por demais demorado. Algumas afirmações do texto do Toinho, em reposta a Letícia, são marcadas por afirmações imperativas, ao tempo em que condena o Marxismo por gerar resultados impositivos e dogmatismo. Na sequência mesma desta afirmação, no entanto, faz referência ao seu conhecimento empírico como que lembrando ser esse o campo a ser preservado. Ou seja, seria a dimensão esquecida pelo marxismo. Nisso, Toinho incorre no esquecimento de que o marxismo aborda a experiência para nela descobrir sínteses concretas. E lembrando Letícia, sínteses que não podem ser concebidas senão no interior de uma totalização dinâmica, em movimento e dialética, ou seja, uma totalização a qual designamos por história.

 

(II) Na sequência, vem uma surpreendente condenação de uma certa lógica imputada ao marxismo que passaria ao largo das verdadeiras tramas sociais que constroem o mundo das mercadorias. A crítica foi direcionada para um alvo incorreto. A lógica que emerge do marxismo não é dada a priori. Ainda aqui podemos recorrer ao que lemos em Letícia: a necessidade do movimento de apreensão da realidade corresponder a um elevar-se do abstrato para o concreto para reproduzi-la (a realidade) como concreto espiritual. Movimento que, necessariamente, condiciona que o argumento teórico deve erguer-se das realidades materiais, antes de se postar como realidade pensada. A organização das categorias, numa totalidade marcada de significado, não é resultado de uma lógica a priori que aprisiona a realidade dando-lhe sentido.

 

(III) O pulo dado pelo sapo, mesmo apoiado em seus instintos, é resultado do desenvolvimento das relações que articulam os processos de reprodução da natureza. O sapo pula como ação possível na sua luta pela sobrevivência. Não estou aqui a propor que no mundo dos homens dos homens prevaleçam leis "naturais". Mas sugiro que ainda teremos muito que conversar sobre esse primeiro tópico - da intervenção do Toinho respondendo a última intervenção da Letícia. Mas, também, devo chamar a atenção para estarmos desfocando o tema pelo qual inciamos essa conversa. Para finalizar: como disse em outra mensagem anterior, o Toinho tem recorrido, com frequência, a provocação, as vezes, ironicamente, no tratamento dos temas. Aceitei os termos quando fiz as considerações acima.



Escrito por Antonio Alves às 16h40
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menos Marx

Essa conversa teórica vai longe. Meu problema é a dificuldade de dar respostas curtas, fico querendo conversar, contar causos... Sabe como é, um assunto puxa outro e –como sempre digo- conversando a gente se estende. Vou preparar um texto mais longo. Mas agora deixa ver se respondo rápido, com a inevitável dose de anarquismo, mas sem perder a pose.

 

Meus pulos

 

(I) Mário não entendeu meu afastamento do marxismo, acha que foi muito “demorado”. Essa palavra refere-se a um afastamento apenas temporal e temporário. Meu afastamento é também físico (fui longe demais) e definitivo: não vou voltar. Não se trata de recusar o marxismo, já disse: ele é necessário, mas insuficiente. Podemos, por acaso, recusar Aristóteles ou Descartes? Não, a contribuição desses pensadores está entranhada em nossa consciência, recorremos a eles a todo instante; não estão “superados”, não serão “descartados”. Mas, francamente, também não podemos ser aristotélicos ou cartesianos. Por isso concordei (embora com certa ironia que considero inevitável) com o que disse a Letícia: usar o método marxista, não segui-lo como uma doutrina. Outra coisa: não “condenei” o marxismo “por gerar resultados impositivos e dogmáticos”. Apenas disse o que me parece óbvio, que o marxismo se pretende positivo, ou seja, ciência que estabelece verdades. Não tenho certeza de que o marxismo “aborda a experiência para nela descobrir sínteses concretas” e, ainda assim, isso está longe de resguardar aquilo que Mário e Letícia acham que é meu “empirismo”, rótulo que aceito com algum incômodo. Se tivesse que dar nome ao que faço, preferiria algo mais romântico, como “pensamento selvagem”... (e aqui permitam-me rir, rs rss, como nosso amigo Astronauta). Por que me recuso a entrar nesse caixote? Porque aí as sínteses “não podem ser concebidas senão no interior de uma totalização (...) a qual designamos por história”. Sinto muito, mas considero, como GilbertoGil, que “a raça humana é uma semana do trabalho de Deus”. Já vi três mil anos se passarem em três segundos. Conheci analfabetos que nunca souberam da existência de Marx e faziam sínteses mais rápidas, totalizadoras, dinâmicas e dialéticas que as dele. Percebi, finalmente, que a história é apenas uma história.

 

(II) Do que se trata, afinal? De usar o método marxista para apreender e reproduzir (melhor palavra seria representar?) a realidade. Mário diz que esse movimento corresponde a um “elevar-se do abstrato para o concreto”. Acho interessante essa idéia de que o concreto é mais elevado que o abstrato, mas logo sou informado de que é um “concreto espiritual”. Então entendo porque não se trata de representar a realidade, mas de reproduzi-la, ou seja, produzi-la novamente, refabricá-la no espaço do espírito. Mas com um condicionamento: erguer a construção a partir das “realidades materiais”. Aqui preciso ir com calma, pra não me confundir: então, partimos do abstrato material para chegar ao concreto espiritual? Se tenho que partir das realidades materiais, não posso fundar meu conhecimento em coisas como o inconsciente coletivo, o imaginário, a afetividade, a cultura? O que posso considerar como realidade material? O Estado, Deus, o átomo, a família, tenho que classificar direitinho o que é abstrato e o que é concreto, tomando cuidado para que a escolha não determine uma lógica a priori que aprisione a realidade e lhe dê sentido. Ufa! dá trabalho ser marxista, hem?

 

(III) Mas o que importa é o seguinte: posso usar esse método para analisar, por exemplo, o PL das Florestas? Sem dúvida, acho que até devo usá-lo, só não creio que seja suficiente. Sinto, com meu instinto, que é importante considerar a receptividade ou rejeição que esse projeto terá no inconsciente coletivo dos amazônidas. Mas desconfio que o método marxista não vai me ajudar muito. Terei que recorrer à lógica da pajelança e seus métodos pouco acadêmicos. E se eu achar que é importante saber a opinião das árvores, dos animais, dos espíritos da floresta? Ah, os materialistas racionalistas vão querer me internar num asilo. Mas terão que me responder a uma pergunta: por que morreram tantos seres humanos na Malásia, com o tsunami, mas não morreram muitos animais? Não sei quantos materialistas racionalistas estavam tentando apreender e reproduzir a realidade antes de serem levados pelas ondas, mas sei que os animais subiram para as terras altas algumas horas antes (teve gente que se salvou porque foi procurar seu gatinho). Não sei o que é concreto e material, mas aquelas ondas eram a realidade real. Será o pensamento uma forma de cegueira? Dizem que é a necessidade que faz o sapo pular. Se Deus quiser, um dia serei um homem inteligente mas, olha, se Ele não quiser, a lagoa tá aí mesmo. Só quero que, de vez em quando, alguém escute minha cantiga irônica e responda às minhas provocações.



Escrito por Antonio Alves às 16h38
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debate-papo

Questão de método

 

Puxei estes novos comentários de Letícia Mamed para a página principal e, logo abaixo, publico minhas respostas. Vamos avançar no debate sobre o PL das Florestas, mas parece que, antes, temos que esclarecer questões de método. Os parágrafos estão, mais uma vez, numerados. É bom, porque tem gente “estudando” (rs rss) e a sequência, todo mundo sabe, é algo indispensável numa boa apostila.

 

(I) Caro A. Alves, Porque voltei a morar no Acre e, principalmente, porque o escolhi como meu objeto de estudo nos últimos anos, suas digressões sobre este lugar sempre me chamaram a atenção. Seu conhecimento empírico sobre nossa sociedade acreana tem me inspirado a pensar, a refletir sobre as devidas particularidades acreanas na sociedade global. Portanto, jamais pretendi expor ou impor uma determinada lógica de pensamento. Seria muito pretensioso tentar fazer isso, além do que não sou adepta a posturas dogmáticas. Minhas intenções se resumem a participar do debate e, quem sabe, contribuir para que ele avance... Se minha primeira intervenção já lhe cutucou profundamente e aos demais que leram meus comentários, penso que começamos bem nosso debate. Sigamos com ele. Eis aqui algumas observações.

 

(II) Como é possível tentar pensar e resolver os problemas da nossa era se não a conhecemos e não reconhecemos as suas possibilidades e limites? Quando digo que é impossível humanizar o capitalismo, não apenas digo como também, e principalmente, busco demonstrar que isso tem se mostrado uma impossibilidade ao longo da história. Faço isso porque minha referência teórica não é simplesmente Marx ou marxismo, mas sim o mecanismo de reflexão que nele se desenvolveu para pensarmos o mundo e a sociedade moderna, um mundo e uma sociedade cujo motor é o capital. Portanto, meu desafio é tentar pensar dialeticamente o mundo e a sociedade em que vivo, porque quero ser um homem do meu tempo! Porque quero não apenas viver, mas quero refletir sobre o que é viver neste mundo! Porque quero produzir e reproduzir minha existência com consciência prática do meu papel como ser social e político neste mundo! E dado que este mundo não é um mundo qualquer, penso que devemos partir das suas características mai

 

(III) Quando se faz a crítica ao marxismo, penso que é necessário indicar sobre qual marxismo se está falando. O marxismo não é alguma coisa monolítica, cuja única expressão foi a vulgata stalinista. Entendo perfeitamente que os teóricos burgueses busquem fazer tal generalização, até porque isso facilita o trabalho deles. Ocorre que não basta descartar o marxismo e dizer que ele está ultrapassado. Como disse anteriormente, o marxismo está no método e, sendo assim, desafio alguém a mostrar que este não seja o mecanismo mais ajustado para problematizar e compreender a sociedade vigente. Por fim, enfatizo que o legado marxiano não se trata de uma doutrina, dele se deve extrair senão um método. Não tem qualquer objetivo de proporcionar dogmas acabados, senão pontos de apoio para uma investigação e o método para esta investigação. Os usos e abusos que fazem deste método é outra questão, mas isso por si só não o invalida. Portanto, não tenhamos medo ou receio de experimentá-lo!

 

(IV) Dito isso, espero seguir com uma leitura interna do PL, pois isso é o que está na ordem do dia. Como indica o prof. Mário, passemos a sua contextualização. E, como você diz, passemos às questões práticas deste projeto. Até a próxima.

Escrito por Antonio Alves às 01h37
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entretantos

Método em questão

 

(I) Sim, seu texto me cutucou porque é bem escrito e me obriga a sair do desleixo habitual para organizar minhas reflexões. Sua evidente inspiração marxista (que não é impositiva nem dogmática a não ser na medida em que o próprio marxismo se pretende positivo, ou seja, ciência que estabelece verdades) me leva a rever princípios e premissas para dialogar no mesmo nível. Também considero, às vezes, que meu conhecimento “empírico” é matéria-prima a ser trabalhada pela indústria do pensamento científico. Mas desconfio que o resultado não vai me agradar e resisto à análise. O guaraná e o tabaco, quanto mais industrializados, mais fracos. O veneno do sapo kampu, se for transformado em remédio para ser comprado na farmácia, talvez combata infecções, mas duvido que possa curar panema. Minha reação à lógica, qualquer lógica, exposta ou subjacente, é apenas isso: um instinto de auto-preservação, como o pulo de um sapo.

 

 

(II) Pena que a frase final do parágrafo ficou truncada, gostei dela começar com o “dado” de que este não é um mundo qualquer. Dos que tenho visto, é um de meus preferidos e o considero muito especial. Desculpe a ironia, mas acho muito difícil que você venha a ser um “homem” de seu tempo. Reconheço que houve, uma vez, um tempo em que a descrição predominante do mundo era aquela que o comparava com uma máquina cujo motor era o capital. Mas esse tempo passou. Ficou visível que o mundo tem muitos motores: o capital, o trabalho, o saber, a tecnologia, a cultura, o medo, o sexo, a religião... E tudo que move o mundo é também movido, não dá manter a separação entre causa e efeito, sujeito e objeto, estrutura e superestrutura. A dialética marcada pela oposição binária tese-antítese (da qual resultava necessariamente uma síntese, nova tese à qual iria contrapor-se outra antítese, num moto-contínuo que almejava extinguir-se no descanso final de um mundo sem classes e contradições) foi aos poucos sendo incorporada como parte de uma lógica mais ampla, policêntrica, polissêmica e polifônica, que já não visa a dissolução das partes em nenhuma síntese unitária, mas a mudança das relações entre muitos pólos que vão continuar existindo e surgindo. Com isso perdeu-se um pouco a utopia de que chegaríamos ao novo mundo, estação final do trem da história, depois do confronto entre as duas classes fundamentais. Mas ganhou-se maior capacidade de compreender o mundo atual; melhor dizendo, os mundos atuais.

 

 

(III) Não se trata, portanto, de descartar o marxismo e substituí-lo por outro “mecanismo mais ajustado”. É possível isolar o método da doutrina? Tirá-lo do corpo de uma filosofia, o materialismo dialético, que fundamentava uma ciência, o materialismo histórico, limpá-lo de idéias e conceitos que, 150 anos depois, já estão mesmo ultrapassados? Acho que sim: não apenas o método mas vários outros elementos do legado marxista (marxiano, como queira) podem nos ajudar compreender parte de uma parte do mundo, aspectos de relações humanas que costumamos chamar de econômicas, sociais, políticas. Mas ficar apenas nisso é retirar a carne e os órgãos da realidade, dizendo que são “determinadas” pelo esqueleto. O método marxista não diz muito sobre a ecologia e é limitadíssimo para compreender a cultura, questões essenciais na Amazônia. Sem falar que não tem serventia para as coisas do amor, para analisar sonhos, para prospectar o inconsciente... É como um serrote: bom para a madeira, mas inútil para a pedra e a água.

 

 

(IV) Vou publicar alguma coisa do PL, para debatermos. A questão das agências reguladoras, que o Mário lembrou, foi considerada pelo pessoal do MMA durante a elaboração da proposta. Elson Martins me disse que acha o projeto adequado ao Pará, mas desnecessário em outras áreas da Amazônia. Podemos ver como o projeto responde, em seus termos internos, a essas questões “contextuais”. Vamos trabalhar, traga seu serrote.

Escrito por Antonio Alves às 01h36
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segue o debate

O texto de Letícia Mamed, de evidente fundamentação marxista, me cutucou na alma. O marxismo é uma caixa fechada, de racionalidade extrema, sem contradições internas. É difícil dissecá-lo, analisá-lo, sem ser capturado pelo fascínio de sua lógica, de seu sistema de conceitos que se auto-sustentam, como uma doutrina religiosa. Em dado momento de minha vida, saí dele e, embora marcado por sua utopia socialista, a ele não mais retornei como sistema de pensamento. Ao longo do tempo, tornei-me cada vez mais rebelde e assistemático. Não posso, portanto, responder ao cutucão com outra lógica, pois não a tenho. Ofereço essas digressões, quase uma desconversa. Que, aliás, ficou muito longa e tive que dividir.

 

Anotações sobre texto de Letícia

 

(I) Inicialmente, quero destacar dois pontos. Um: o processo social do capital, embora hegemônico, não é homogêneo. Concordo, mas em que isso modifica a nossa resposta ao capitalismo? A meu ver, parece que temos um sentimento de recusa, de oposição, que também é hegemônico mas não homogêneo. Internalizamos as contradições do “processo social”, por meio daquilo que Deleuze e Guattari chamaram de “modo capitalístico de produção da subjetividade”. Assim, embora pareçamos recusar o capitalismo in totum, no íntimo queremos salvar as partes que nos interessam. Aqui eis o segundo ponto: vemos a ocorrência simultânea de civilização e barbárie, mas, no íntimo, ainda queremos ficar do lado da civilização e combater a barbárie, como se fosse possível separá-las. Como na anedota do gato esperto, ao qual é servida uma tigela de café com leite –e ele toma todo o leite, deixando apenas o café na tigela. É fácil colocar os milhões de judeus mortos pelo nazismo na conta da barbárie. Mas onde debitar os guilhotinados pela Revolução Francesa, os milhões de mortos do stalinismo e do maoísmo, os fuzilamentos em Cuba? Na conta da civilização podemos, ao menos, colocar as tribos da África e das Américas?

 

(II) Parece evidente que o capitalismo de hoje não é o mesmo do início, quando não havia limite de idade nem de duração da jornada de trabalho, contratos, leis trabalhistas etc. Também é evidente que o capitalismo na Suécia e Finlândia não é igual ao da Bolívia e do Brasil. Portanto, a impossibilidade de “humanizar” o capitalismo não pode ser o argumento principal para recusá-lo. Se a “mudança que queremos” implica pensar em outra sociedade, então implica pensar em outra subjetividade e sentidos da vida, outros valores existenciais, outro padrão civilizatório, muito além da superação da miséria material. No entanto, nossa luta e nossos ideais estão contaminados pelo ressentimento, pelo desejo de vingança contra os que nos oprimiram. (Entre os pensadores, há uma ferida mal curada: a derrota dos vários “socialismos” deixa os velhos comunistas com cara de vilões de quadrinhos, murmurando por trás da gola do casaco “eu voltarei, um dia...”) Assim, a própria idéia de outra sociedade surge, em nossa mente, como um oposto simétrico da atual ou, num movimento idealístico hegeliano, como uma síntese evolutiva a partir do que temos hoje. Por exemplo: queremos distribuir a riqueza, que o capitalismo concentra; mas não questionamos o que é riqueza. (Num curso de educação indígena o professor pediu que os alunos desenhassem a riqueza. Um deles desenhou um rio, com a mata ao redor, muitos peixes, aves, casas, pessoas... Para ele, riqueza não está associada à produção. Experimente você, caro leitor, desenhar a sua idéia de riqueza.)

 

(III) Suponhamos outro Estado, que representasse legitimamente os interesses gerais e cuja competência não fosse desenvolver o modo de produção capitalista. Deveríamos, também, supor a existência de uma sociedade homogênea, não apenas sem classes mas sem contradições de qualquer espécie, que não tivesse crises, que não necessitasse de “orientador” para o desenvolvimento (aliás, nem necessitasse de desenvolvimento). Bem, imaginamos o paraíso. Mas como chegar a ele? Devemos, naturalmente, descartar qualquer hipótese de reformar o Estado e a sociedade hoje existentes. (Hum... talvez pudéssemos conservar só a minha cátedra na Universidade. Fortalecer meu instituto de pesquisa. Internet, sim, isso é bom. Talvez uma banheira de hidromassagem...) Não, nada de reformas. Precisamos de uma revolução... ou de um stalker que nos mostre o caminho.

Escrito por Antonio Alves às 01h34
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continuação

(IV) A idéia do Desenvolvimento Sustentável, que nasceu de um relatório da ONU em 1986, pretendia achar o “caminho do meio” e conciliar duas coisas que pareciam ao mesmo tempo opostas e necessárias: desenvolvimento econômico e conservação ambiental. O termo popularizou-se, virou discurso alternativo, depois discurso oficial. Mas os exemplos práticos são locais, setoriais, não compõem um sistema. Não há um “farol do desenvolvimento sustentável no mundo”, como os vários que existiam para o socialismo e que se apagaram junto com o século 20. O que tivemos a ilusão de constituir como o exemplo local mais avançado, uma pequena unidade federativa do Brasil, o Acre, perdeu-se em politicagem e marketing. Tudo fica na retórica, que os governos vão adaptando aos seus interesses: quando os economistas falam em “crescimento sustentado” estão querendo dizer contínuo, que se mantém. Não há plano de desenvolvimento sustentável algum. Ora, mas e o Plano Amazônia Sustentável, que o Lula lançou numa reunião de bacanas no Acre? Bom, isso foi no primeiro ano de governo, ainda se podia jogar para a platéia. Agora temos que ser práticos: queremos o financiamento do agrobusiness e os votos do PMDB. Sabem, no final das contas, meu lado cartesiano bem que gostaria de criticar uma lógica, uma trama, um plano governista no qual o velho capitalismo se disfarçasse de Desenvolvimento Sustentável. Ah, eu o desmascararia e demonstraria sua falácia. Infelizmente, nem isso existe. Temos apenas um governo confuso e sem plano, em que cada um atira para um lado e acabam acertando uns aos outros.

 

(V) Também gosto, às vezes, de pensar que o “desenvolvimento” é uma estratégia política, uma cenoura colocada diante do burro. Mas a pobreza é real, e não pode ser superada só pela caridade; a mudança social necessita, de fato, de uma mudança econômica. Por isso não jogo no lixo da política a idéia do desenvolvimento. Tento pensar na palavra, des-envolvimento, com outra imagem: a de um pássaro que, quando está pronto, rompe a casca do ovo; de uma borboleta que abandona o casulo, de uma comunidade que se organiza para construir a escola e o armazém. Talvez fosse melhor usar outra palavra (já tentei “evolução” e até pensei em recuperar o velho “progresso”), mas estão todas gastas. No fim, mesmo insatisfeito, faço remendos no “desenvolvimento sustentável” e vou usando antes que os governos o estraguem totalmente. 

 

(VI) Agora isso de “motor da história” já não uso mais, nem por saudosismo. Fico imaginando os marxistas na Malásia, acusando ex-companheiros de terem abandonado a perspectiva da luta de classes, revisionistas, traidores do proletariado... dois dias antes do tsunami. Olho a complexidade do mundo e vejo que a “estrutura vigente” não é a de uma máquina com carroceria e motor, nem de um edifício com fundações e cobertura; mais me parece uma desarmonia orgânica (redes entrelaçadas de membranas físicas e psíquicas, biológicas e simbólicas, com um certo pulsar eletromagnético) e tenho dificuldade de sintetizá-la numa metáfora única, ainda mais uma metáfora mecânica.

 

(VII) Dito tudo isto, o que resta? Resta o projeto de uma lei, a ser aprovada por um parlamento corrupto, executada por um governo caótico, fiscalizada por funcionários incompetentes de órgãos públicos fragilizados diante de uma sociedade em conflito em que monstros capitalistas devoram a madeira e a carne dos pobres. Ser contra ou a favor dessa lei, o que importa? Desde já concordo com a inutilidade de qualquer iniciativa que não seja precedida da mudança total do mundo. Mas lembro de uma velha música do Gilberto Gil: “eu também sou do lado de Jesus/ só que eu acho que ele se esqueceu/ de dizer que na terra a gente tem/ que arranjar um jeitinho pra viver”. Pois é, enquanto a mudança total não acontece, o que vamos fazer? Não disputar eleições, pra não ter que ficar administrando o Estado burguês, não assumir ministérios nem secretarias, não participar de governos de coalizão, não apoiar projetos setoriais e pontuais, não comer carne nem tomar coca-cola. Parar tudo e sentar pra discutir um projeto de sociedade, refazer a utopia que o mundo cruel destruiu.

 

(VIII) Quem mais vai participar dessa conversa? Gostaria de saber o que pensam meus amigos que moram na floresta, seringueiros e índios, os desempregados da periferia das cidades, os jovens que estão concluindo um curso técnico, gente assim. Será que eles vão poder conversar? Afinal, vejo-os tão ocupados e ansiosos por trabalho, dinheiro, coisas práticas, quando não estão enfrentando conflitos pela posse de terra ou o aliciamento de madeireiros e fazendeiros... Como olharão esse Projeto de Lei? E como o olhar deles poderá me ajudar a ajustar o foco do meu?

 

(IX) Será que o resultado de tudo será apenas legalizar a devastação? A política de “redução de danos”, afinal, é apenas uma oficialização da permissividade? Não há nem mesmo aquele pequeno passo adiante que o velho Marx dizia valer mais que mil programas? Quero que me entendam: essas perguntas não são retóricas, faço-as de todo coração, sinceramente. Não tenho posição fechada, tenho inclinações e quero conversar. Falem, companheiros; prometo escutar com atenção. E aconselho a todos que entrem nesse novo milênio com as oiças bem abertas.

Escrito por Antonio Alves às 01h34
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Comentários de Letícia Mamed

 

(I) A princípio, uma coisa há de ser dita: ainda que o processo social do capital seja hegemônico, ele não é homogêneo; as contradições são a base desse processo, que é de simultânea civilização e barbárie. Com isso, quero dizer que seu BLOG é prova dessa contradição! É prova de que é possível exercitar a reflexão em tempos tão sombrios... tempos de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada! E mais, é prova de que nada é impossível de mudar! Lembra dessas passagens do Brecht? Certamente você as lembra...

 

(II) Mas o que significa mudar? A mudança que queremos é uma mudança dentro desta ordem social, sob a mesma lógica social do capitalismo? Mudança nestes termos não é mudança, é conservação! Afinal, supor melhorias e ajustes nesta forma social é uma busca para conservá-lo. Penso que o limite da reflexão não deve ser esta sociedade, mas outra; que devemos partir desta para pensar outra, pois esta sociedade do capital não é eterna ou imutável, como também não foram as anteriores a esta. A impossibilidade de “humanizar” o capitalismo nos é evidente. Teorias, estratégias e promessas de desenvolvimento sustentaram vários programas de governo brasileiros (ditatoriais, “democráticos” ou “redemocratizantes”), sucessivamente justificados pela necessidade de “reestabelecimento” da ordem política, econômica e social. Não houve desenvolvimento econômico, a ordem política é questionável e a sociedade mergulha na miséria – mas o argumento se repete.

 

(III) Para assegurar o que lhe compete (o desenvolvimento do modo de produção capitalista), o Estado certamente exerce seu poder “orientador” da economia, e apresenta-se como uma instância legítima de representação dos “interesses gerais”. A questão é que, após reestabelecidas as taxas de acumulação, o capital segue seu ciclo de realização (concentração e centralização), impondo novas metas de crescimento e, por conseguinte, outras estratégias políticas. Nesse momento, o Estado reassume sua “responsabilidade”, com novos planos para o desenvolvimento da “economia nacional”. A história do Brasil possui um vasto arquivo de planos econômicos, projetos de desenvolvimento, ou modelos de crescimento que, invariavelmente apresentados como indispensáveis à promoção da autonomia econômica e da soberania nacional, foram substituídos a cada novo governo, de acordo com a etapa de crescimento do capitalismo em vigor, sempre apontando os “velhos erros” e os “novos acertos”, para “sair da crise”.

 

(IV) Daí que agora temos em vigor o Plano de Desenvolvimento Sustentável. A agenda desse atual plano preserva antigos discursos. A reforma agrária só em terras ociosas, como no anterior, mas com “vigoroso apoio à pecuária e à agricultura comercial”, pois a nova administração manterá as metas estabelecidas com o FMI (Lula da Silva, Discurso de Posse, 01/01/2003). A diferença deste em relação aos demais é, portanto, de “agenda” e “forma” de encaminhamento. As reformas (previdência, tributária, política, trabalhista) são as mesmas inauguradas pelo governo FHC, também graças a um “pacto social” (FHC, Mensagem ao Congresso Nacional, 15/02/1995). Com a atualização do projeto, de “reformas” econômicas, discursos desenvolvimentistas, promessas de bem-estar e pleno emprego, elabora-se mais um plano de governo, claramente preocupado em restabelecer o “crescimento econômico” e a “justiça social”: “um governo de/para todos”.

 

(V) A questão é como conciliar interesses de classes antagônicas. Pois se a intenção fosse eliminar os antagonismos de classes, os inúmeros planos de desenvolvimento teriam sido ineficazes. Apenas reproduziriam as desigualdades sociais, pois sua pretensão jamais foi eliminar, mas “administrar”, os conflitos. Foram eficientes, portanto, para gerar expectativas, renovar estratégias políticas e redirecionar a economia, de acordo com as necessidades capitalistas. Por isso, a estratégia do “desenvolvimento”, adequadamente utilizada em nome do bem-estar social, renova-se continuamente, a cada crise do capitalismo.

Escrito por Antonio Alves às 01h31
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continuação

(VI) Com a demonstração diária de que a economia brasileira permanecerá subordinada ao modo de produção capitalista, no qual prevalecem as diretrizes neoliberais, qualquer taxa de crescimento apenas se converterá ao pólo centralizador do capital financeiro. Não garantirá desenvolvimento econômico, social ou humano, mas poderá assegurar a administração dos conflitos, em nome da autonomia econômica e da soberania nacional. Mas não indefinidamente, pois a repressão também estimula o “motor da história”, que permanece funcionando, em ritmo bastante acelerado. Dito isto, penso que a devida e justa mudança (se a queremos de modo efetivo/concreto) significa transformação da estrutura vigente.

 

(VII) O caso do PL das Florestas é bastante sugestivo. Deve-se pormenorizar seus diferentes aspectos e as implicações que encerra. Quando se fala em dar ao Estado um mínimo de controle sobre a situação das terras na Amazônia, devemos pensar sobre qual Estado estamos falando. Pois esse Estado do qual falamos não é um ente abstrato e imparcial. Cotidianamente, o Estado se concretiza para o cidadão através do seu aparato administrativo e burocrático e, principalmente, através das ações que emanam desse aparato. Sendo assim, podemos dizer que ele é imparcial? Acho que não! O Estado brasileiro é, definitivamente, um estado capturado por determinados interesses de classe. Alguém conseguiria demonstrar o contrário? Também acho que não ... Entendo que haja um ponto e objetivo comum nas intervenções: a questão de fazer com que a utilização da terra na Amazônia se realize em benefício principal daqueles que nela trabalham, e não constitua apenas, como é o caso presente, simplesmente um negócio de pequena minoria. No entanto, a discussão que envolve esse projeto não pode seguir adiante se antes não mapearmos a questão nos seus termos estruturais. Isto é, se não atentarmos aos fatos da nossa história econômica e organização agrária nacional.

 

(VIII) A sociedade é total, é uma totalidade! É assim que devemos pensá-la! Para tanto, a dialética pode nos servir de mediação ... Pois a tentativa desse projeto pode até ser honesta, mas o que define os rumos de um processo econômico-político-social-cultural não são as “boas intenções” de iniciativas pessoais, pontuais e isoladas. Neste caso do PL das Florestas, o problema humano e social sobreleva geopolítico e agronômico, e antes de indagarmos sobre o nível predatório e o padrão tecnológico da produção (como querem os adeptos do manejo florestal), devemos saber que categoria de indivíduos, e em que proporções, esse projeto vai beneficiar.

 

(IX) A aprovação desse projeto, nos termos colocados pelo governo (e aí já se perderam as boas intenções iniciais), tornaria legal o que até agora dizem ser ilegal, pois incentivaria ainda mais a organização empresarial do capital nacional e internacional na Amazônia. Essa é a grande tendência histórica, se atentarmos, como disse antes, aos fatos da nossa história econômica e organização agrária. Não seria o caso de pararmos de discutir e repetir projetos de ajustes e consertos nessa estrutura social viciada e nefasta, e passarmos à discussão de projetos de sociedade? A partir daqui, espero iniciar nossas discussões.

Escrito por Antonio Alves às 01h30
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Ponto por ponto

 

(I) Não discordo, mas quero acrescentar. A expansão da URSS sufocou tribalismos que seriam importantes na sua dissolução, décadas depois. Enquanto se criava um pólo forte no Leste (Moscou), a derrocada do império Austro-húngaro criava uma “terra de ninguém” no meio da Europa. O movimento anticolonial na Índia é sempre esquecido, mas revelou Ghandi e a disputa pela Caxemira, com componentes culturais e religiosos subestimados na época mas que hoje mostram sua força. A China ergueu outro império e também criou novas tensões no Oriente: Camboja, Vietnã... Mas há ainda muito mais, se sairmos do “recorte” político-econômico e observarmos as mudanças culturais. Impressionismo, psicanálise, cinema, rock, relatividade, computadores, hippies, krig-há bandolo e shazan: revoluções por minuto. Ora, pois, enquanto a teoria do desenvolvimento avançava tentando manter a linhagem racionalista da economia política, o mundo explodia duas vezes por ano. Todas as redes conceituais chegaram ao final do século completamente rasgadas.

 

(II) Sim, mas essa divisão de tarefas, assim como a idéia de que o desenvolvimento tem que incluir a mudança social, não era resultado de um planejamento estratégico, no sentido restrito, mas da irrupção de uma utopia intuitiva. A resistência socio-ambiental, no Acre, teve um forte componente cultural. Índios e seringueiros tinham substância e linguagem. A florestania existia; foi uma descoberta, não uma invenção. Assim, creio que alargamos o espaço do descontentamento com a teoria do desenvolvimento e enfiamos nele nossas formulações intuitivas. Entretanto, “de forma impressionante”, como Mário bem diz, as explicações baseadas na hipótese das carências permaneceram ao nosso lado, prontas para assumir o controle no momento em que não precisassem mais da utopia.

 

(III) Não exatamente. Gravar na consciência da sociedade a idéia da possibilidade do progresso econômico ainda é algo muito restrito, que nos permite ganhar alguns votos antes dados aos “progressistas”, mas não assegura a mudança. Esta só seria possível com a expressão do inconsciente da sociedade, a liberação da enorme energia contida na cultura, através de uma democracia radical. A imagem da mudança “enfocada no grupo”, para ser compreendida, deve ser levada às últimas consequências. Eu costumava dizer, nas reuniões: “enquanto tivermos o controle da situação, a mudança será pequena e outro governo poderá revertê-la; a mudança real só acontecerá quando ninguém controlar as iniciativas da sociedade”. Para mim, uma das perdas principais foi o abandono da idéia de auto-gestão, que era forte no início do movimento dos povos da floresta, e que apontava para a possibilidade de pensar o desenvolvimento como o desabrochar de potencialidades internas e não como algo que alguém vai trazer de fora. (Muitas vezes lembrei de uma frase que vi num texto do Mário, sobre a necessidade de algumas cidades acreanas “assumirem a sua ruralidade”.)

 

(IV) De pleno acordo, inclusive com a despreocupação sobre “detalhes importantes”, porque, se fôssemos lembrá-los, teríamos que chorar lágrimas amargas.  Por quê? Porque a “idéia tecnocrática” e o “enfoque no indivíduo” são palavras suaves demais para descrever a triste realidade.

 

(V) Bem, a impressão que tenho é que, nos últimos anos, o pensamento do professor Rego tornou-se mais amplo e complexo. Acho que ele trabalha mais com a noção de territorialidade, menos com a de propriedade. E inclui variáveis culturais, quando diz que o extrativismo não é uma atividade econômica mas um “modo de viver”. Acho que ele tem aprendido e ensinado muito. Pena que seja desconsiderado, como, aliás, todos os formuladores de sonhos.

Escrito por Antonio Alves às 01h26
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Comentários de Mário Lima

 

(I) A situação mundial marcada pelas revoluções de 17 na Rússia e de 49 na China, a Revolução Cubana de 59 e os movimentos de liberação nacional, levando ao surgimento de novas nações saídas do colonialismo, eram as marcas de um mundo cindido pela polarização. O mundo soviético ganhava espaço na luta pela transformação da base produtiva. Assim, durante os anos cinqüenta e sessenta, floresceu um dos campos mais importantes da Economia, o da teoria do desenvolvimento econômico. Buscava-se as fontes da riqueza dos países ricos e a descoberta dos caminhos a serem seguidos pelos países pobres. Num primeiro momento, prevalece a idéia de um atraso provocado pela carência - de poupança, de capital, de capacidade empresarial. Esta idéia tem a vantagem de ser facilmente assimilada e os caminhos para o desenvolvimento a serem construídos a partir delas são óbvios: basta preencher as carências trazendo, desde fora, o que faltar. A continuação das dificuldades será resultado da resistência a mudanças.

 

(II) Ao longo da segunda metade do século passado, a teoria fundou-se nessa busca de um primo mobile para o desenvolvimento. Saltou-se dos fatores produtivos - ora enfatizando um, ora enfatizando outro. O campo da crítica alargou-se a ponto de no interior mesmo do pensamento convencional, socialmente predominante, o descontentamento com a teoria em geral ser amplo. De forma impressionante, esse movimento mantém-se ao longo do tempo e, até agora, encontramos muitas explicações apoiadas na hipótese das carências. O texto do Toinho nos fala disso. Discutir a questão do desenvolvimento envolve, necessariamente, uma compreensão de mudança social e disso nos fala também o Toinho com sua descrição de um certo arranjo político, numa certa divisão de tarefas entre a senadora Marina e o campo da ação executiva no Acre.

 

(III) Pelo que pude inferir, o Toinho assume a eleição do governo da floresta como o resultado de um movimento apoiado num amplo programa visando mudanças sociais amplas e de encaminhamento para uma particularidade produtiva. Tenho a sensação de que a ação política deveria ser apoiada na idéia - a ser difundida - de que a mudança e o progresso seriam possíveis através de um caminho alternativo da sustentabilidade econômica, social, biológica, política e cultural. Para os teóricos do desenvolvimento, as idéias dos documentos básicos do movimento político de que nos fala o Toinho, a "imagem da mudança é enfocada no grupo". Ou seja, a dinâmica para a mudança estará assegurada a partir do momento em que se grava na consciência da sociedade a idéia da possibilidade do progresso econômico.

 

(IV) Uma possibilidade para o abandono dos caminhos inicialmente traçados será o abandono de tal perspectiva. A partir de dado momento, apoiado em alguma idéia tecnocrática, o desenvolvimento passa a ser avaliado na idéia abstrata do crescimento da renda. Isso pode decorrer de um deslocamento do enfoque sobre o grupo para uma posição onde a imagem da mudança é enfocada ao indivíduo. Sem maiores preocupações sobre detalhes importantes, podemos destacar que aqui podemos identificar pontos em moda na atualidade. Por exemplo, a idéia schumpeteriana do empresário inovador. Certos personagens (podemos dizer, certos indivíduos são os responsáveis pelo crescimento) passam a ser privilegiados. A dificuldade nisso é que o governo passa a arbitrar em benefício de tais personagens e, lamentavelmente, em detrimento, daqueles que deveriam ser o alvo da mudança.

 

(V) Pelo que conheço das idéia do professor Rego, um dos pontos que ele defende é a organização da produção regional com base na pequena (e mesmo médias) propriedades. A questão agrária da atualidade, tomada em escala mundial, tem no esmagamento da pequena produção seu núcleo.



Escrito por Antonio Alves às 01h24
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Atrasos e repetições

 

O Mário Lima notou, num comentário sobre o projeto de Concessão de Florestas, que o nó da questão estava colocado em meu texto nos seguintes termos: a) o projeto é uma tentativa honesta de dar ao Estado um mínimo controle sobre a situação das terras na Amazônia; b) a tentativa honesta é do Ministério do Meio Ambiente, porque o restante do governo vai na direção oposta, de apoio ao capitalismo predatório.

            Reli meu texto e achei que estava repetindo o que já havia dito, sem evoluir nem sair do lugar. Encontrei, então, um parágrafo redigido no início deste ano, justamente para responder a outro comentário do Mário. Só que não sei se cheguei a publicar, então vou transcrever correndo o risco de ser duplamente repetitivo. Eis:

            Pra mim, o assunto é complicado. Coisa de uns dois meses atrás, quando a Marina esteve em Rio Branco, estive numa reunião em que ela e o Carlos Vicente contaram horrores do que vem acontecendo no Pará e no chamado ‘arco do desmatamento’. Diz que a ausência do Estado é quase total. Os madeireiros abrem estradas por conta própria, os colonos acham ótimo, a coisa toda anda sozinha. Dessa forma, reservar áreas para a indústria da madeira pode ser a única intervenção possível. Bem, pessoalmente sou contra a extração de madeira em escala industrial e, de resto, contra o capitalismo em geral. Mas, o que fazer? Todo mundo sabe que o uso de drogas injetáveis aumenta o risco de disseminação do HIV, mas na impossibilidade de erradicar as drogas, o jeito é distribuir seringas descartáveis e dizer ‘aí, galera, injeta cocaína com agulha limpa pra não passar doença pro colega’. Os engenheiros florestais certamente acham essa comparação descabida, porque acreditam que o ‘manejo’ da madeira é ambientalmente sustentável. E acreditam que dá pra atrair uma parte dos capitalistas para dentro da lei, com área reservada, plano de manejo, certificação etc. Eu acho isso uma ilusão. O cara vai ter duas firmas, uma limpa e outra pirata. Se necessário, tem duas ou três firmas limpas, lavando dinheiro das sujas. Até que a eficiente fiscalização do Estado perceba, processe, julgue, puna... No final das contas, parece que tudo ainda depende daquela ‘grande mudança’ pela qual tanto lutamos e que parece ter sido adiada sine die.”

            Então. É claro que o pessoal do MMA não tem como mudar o padrão geral de ocupação da Amazônia. Nem mesmo pode garantir que todo o governo vai agir, coordenadamente, para fazer valer a nova lei. Um dia desses, numa entrevista, Marina falou na possibilidade de criar um “circuito virtuoso”, ou seja, uma série de acontecimentos encadeados que vão aos poucos mudando a situação para melhor. Se as empresas obtém lucro seguro na legalidade, o estado arrecada impostos, com isso reforça suas instituições e beneficia as populações locais, que aumentam o controle social e a legalidade...  Dá pra acreditar?

            Não seria necessário “acreditar”. A essa altura, depois de 6 anos de governo “da floresta”, já deveríamos ter exemplos práticos de que o tal circuito virtuoso funciona. Nossa estratégia inicial consistia justamente nisso: Marina anunciaria ao mundo um modelo de desenvolvimento sustentável e teria como mostrar seu funcionamento com os exemplos do Acre. Mas houve um pequeno problema: o governo estadual atrasou-se, enrolou-se com os prazos eleitorais, não acreditou que a economia florestal teria resultados mais rápidos que as obras urbanas, ficou retido no velho argumento desenvolvimentista de que era necessária “uma etapa para criar a infra-estrutura”...

            Há resultados, sim, mas são incipientes e isolados, como os velhos “projetos-piloto” que passamos duas décadas fazendo quando estávamos nas ONGs. Ficamos a anos-luz de distância do sistema hierarquizado de produção, com ênfase na indústria agro-florestal, antevisto pelo Prof. Rêgo nas eleições de 98. Mais longe ainda do Desenvolvimento Humano que anunciávamos ao assumir o governo, embora não se possa desconhecer as melhorias na Educação, melhor dizendo, no sistema escolar público, o que é louvável mas insuficiente. Pra não falar nas famosas 5 dimensões da sustentabilidade (ambiental, econômica, social, política e cultural) que deveriam reger os todas as iniciativas do Estado, desde o menor projetinho numa pequena comunidade até o projetão do BID.

Mas, afinal, dava mesmo pra criar um novo modelo ou sistema de desenvolvimento sustentável? Talvez não fôssemos tão longe, mas creio que era possível colocar em andamento alguns “circuitos virtuosos” na economia regional. Bastava seguir o plano inicial e não se perder em politicagens.

E agora sei porque me sinto repetitivo, sem avanços, nessa questão do PL das Florestas. É que a própria situação prática avançou muito pouco e, de fato, não temos como demonstrar as hipóteses e teorias, favoráveis ou contrárias. Estamos todos repetindo as mesmas perguntas, com a incômoda sensação de que devemos retroceder alguns passos pois as respostas ficaram lá atrás, em algum ponto do caminho



Escrito por Antonio Alves às 01h22
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