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(pensar global)

A economia é política disfarçada

 

Hazel Henderson (*)

 

            St. Augustine, Flórida, junho/2006 – Já é de conhecimento público que a economia não é de modo algum uma ciência, mas sempre foi política disfarçada. A economia agora é amplamente vista como um defeituoso código de origem inserido profundamente nas empresas, gerador de insustentabilidade. Daí os booms, as bancarrotas, as bolhas, as recessões, as crises energéticas, a diminuição de recursos, a pobreza, as guerras comerciais, a contaminação, o desbaratamento de comunidades e a perda de diversidade cultural e biológica.

Os cidadãos de todo o mundo estão rejeitando esse código defeituoso e seus sistemas operacionais, representados pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização Mundial do Comércio e os imperiosos bancos centrais. Seu rígido programa, a agora ridicularizada receita do Consenso de Washington para essa fraude conhecida como o crescimento do Produto Nacional Bruto, é desafiado pelo Índice de Desenvolvimento Humano, pela Análise da Pegada Ecológica, pelo Índice do Planeta Vivente, pelos indicadores Calvet-Henderson sobre Qualidade de Vida e por outros índices.

Toda moeda real é local, criada pelas pessoas para facilitar o intercâmbio e baseada na confiança. A história de como esta útil invenção cresceu a partir de moedas nacionais abstratas de circulação fiduciária apoiadas unicamente pelas promessas de governantes e de banqueiros centrais, está sendo contada de novo. Nós presenciamos como a tecnologia da informação e a desregulamentação dos bancos e das finanças na década de 80 ajudou a construir o atual monstruoso cassino global em que US$ 1,015 trilhões circulam diariamente por todo o planeta por meio de intercâmbios eletrônicos, 90% dos quais correspondem a negócios puramente especulativos.

Como uma reação a este fenômeno, atualmente vivemos em nível mundial experimentações com intercâmbios locais, trocas e clubes de intercâmbio tais com Deli-Dollars, LETS, Ithaca Hours e outros nos Estados Unidos e no Canadá. Milhares de milhões de pessoas ainda vivem em sociedades tradicionais nas quais não se usa dinheiro, como nos setores do voluntariado, integrados em sua maioria por mulheres.

Quando os grupos e as comunidades locais criam seu próprio papel-moeda ou substitutos deste, como vales e sistemas de intercâmbio, aprendem o mais profundo segredo dos economistas: o dinheiro e a informação são equivalentes e não escasseiam. A troca ou permuta, desprezada pelos manuais sobre economia como uma relíquia primitiva, se converteu em alta tecnologia. A maior feira americana de objetos usados, eBay, é um exemplo de como evitar os mercados existentes.



Escrito por Antonio Alves às 20h28
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continuação

            As pessoas começaram a se dar conta de como os bancos centrais e os sistemas monetários nacionais controlam a população mediante o manejo macroeconômico dos baixos níveis de emprego, a escassez de hipotecas e de empréstimos para compra de veículos através do fornecimento de dinheiro, do crédito e das taxas de juros e de todas as alavancas e grifos secretos usados pelos banqueiros centrais.

Apesar do uso e abuso de tais mecanismos, o crescimento de alternativas locais saudáveis está se propagando em nível mundial. O Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre em 2001 impulsionado por reformistas brasileiros é um dos numerosos movimentos em todo o mundo. O default da Argentina em 2001 ensinou os cidadãos desse país que podiam confiar em suas próprias moedas paralelas locais não-oficiais, nos mercados de pulgas e nos sistemas eletrônicos de intercâmbio mais do que na moeda oficial do país, o peso.

Brasil, Argentina e Venezuela decidiram quitar os empréstimos com o FMI para liberar suas economias das prescrições do Consenso de Washington. De modo que hoje em dia o cassino global com seu cortejo de desequilíbrios, déficit, instabilidade monetária, pobreza e crise da dívida do momento global atual requerem um redesenho sistemático desse defeituoso código de origem da economia. Preocupados, ministros das finanças e banqueiros centrais reclamam em vão “uma nova arquitetura financeira internacional”.

Antes que caiamos em erros deveríamos evitar a pequenez doutrinária, os localismos ideológicos e instintivos impulsos libertários. Nada pode proteger as comunidades locais dos estragos da globalização dirigida pelos fundamentalistas do mercado. No mundo atual saturado de informação as comunidades precisam compreender novamente quais elementos rechaçar e quais adotar. A rejeição total pode levar à rigidez, à xenofobia e uma má leitura da história. Além disso, uma aceitação completa das atuais insustentáveis tendências econômicas globais seguramente conduzirá à perda das culturas locais e da biodiversidade, bem como a redução drástica dos recursos naturais. Das mudanças que estão ocorrendo e de suas imprevistas conseqüências devemos, então, aprender e evoluir, pois do contrário sofreremos um colapso ecológico.

 

(*) Hazel Henderson, economista norte-americana, autora de Beyond Globalisation e outros livros.



Escrito por Antonio Alves às 20h27
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Zuenir e Gaspari

Um grande teste

 

Zuenir Ventura

 

E vai alguém fazer previsão política neste país! Você sai para uma viagem por Minas e Espírito Santo, fica prestando atenção em outras coisas, e 15 dias depois, quando volta, está tudo mudado: o PT deu um tiro no pé (no pé?), a oposição deu uma virada e a campanha eleitoral, que muitos achavam sem emoção, chocha, pegou fogo. Tom tinha razão, o Brasil não é para principiantes. O tal do povo, por exemplo, que todo político pensa que conhece, gosta de enganar.

Ao governo, ofereceu a ilusão de uma vitória fácil, e Lula acabou traído pela própria soberba e presunção, ele que já não pensava no segundo turno, mas no segundo governo.

Também a oposição foi enganada. Antes do dossiê, quando uma reversão parecia impossível, ela culpava o eleitor “mal informado e apático, incapaz de reagir”. Li na internet inúmeras mensagens de oposicionistas furiosos, querendo trocar de povo.

Hoje devem ter descoberto que povo é bom, desde que concorde com a gente. Um dos piores efeitos colaterais das lambanças do governo Lula foi banalizar o discurso ético e baratear a indignação.

O que mais se viu na mídia nas últimas semanas foi gente “indignada” — candidatos, jornalistas e até caciques criados na ditadura — fazendo comícios contra a corrupção, como se ela fosse inédita e precisasse de adjetivos para qualificá-la. Pareciam virgens tomando conta de um bordel em que, na verdade, o cinismo do governo disputa com a hipocrisia da oposição.

Essas eleições ensinaram muito sobre o eleitor, que costuma ser tratado como entidade uniforme, e não como um ser tão variado quanto as pessoas de que é feito. Como substantivo coletivo de cada um de nós, ele é capaz do melhor e do pior. Pode derrotar Severino, Quércia e Newtão, mas também eleger Maluf, Collor, Clodovil; expulsar da Câmara os sanguessugas e aceitar de volta os mensaleiros.

Não entendo de política, e sempre fui um inocente inútil. Votei pelo segundo turno porque acho que muita coisa ainda precisa ser passada a limpo.

Não me iludo, porém, com o tom leve e civilizado das primeiras entrevistas dos dois candidatos. As próximas semanas serão o grande teste para a convivência democrática. Como se comportará o país rachado ao meio? Acho que vai ser um pega-pra-capar.

            Aquele clima passional do primeiro turno, em que já se notava um perigoso ranço de preconceito de classe, pode se exacerbar. Os estragos nas relações políticas serão tantos que, em vez da “concertação” já proposta, será preciso uma “consertação”, com S. Se é que vai ter conserto. No entanto, quando olho para o novo cenário e vejo nomes como José Serra, Aécio Neves, Jaques Wagner, Paulo Hartung, acredito que sim, qualquer que seja o resultado. Eles são capazes de evitar o pior, por interesse político e correção moral.

Escrito por Antonio Alves às 14h00
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A marcha dos palhaços

 

ELIO GASPARI

 

Na segunda-feira, com aquelas olheiras que só a adversidade eleitoral produz, Nosso Guia candidatouse ao lugar de coordenador da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência da República. Fez isso quando tratou do Dossiê Vedoin e disse o seguinte: “Eu quero saber quem arquitetou essa obra de engenharia para atirar no próprio pé.” Quer? Pergunte a Ricardo Berzoini e a Aloizio Mercadante. Eles podem ajudar.

Ao tratar de um crime como curiosidade, Lula assumiu a condição de padrinho dos malfeitores petistas, aloprados e trambiqueiros. Padrinho no sentido da figura de Dom Corleone/Marlon Brando.

Não há nenhuma prova, indício ou pista de que haja bico tucano na construção do papelório. Há apenas um raciocínio lógico: se os tucanos foram favorecidos pelo episódio, há dedo deles na produção.

Coisa assim: a invasão da Rússia por Hitler permitiu que Stalin consolidasse a sua tirania, donde, Hitler foi uma jogada de Stalin.

Admita-se que o raciocínio de Lula está certo. No início de setembro, um tucano teve uma idéia: vamos pedir ao Vedoin que faça um dossiê contra o Serra, ele o vende ao PT, nós flagramos os compradores, fotografamos o ervanário e botamos o escândalo na imprensa.

Um petista aloprado come a isca, compra-se o caso, acerta-se a publicação da denúncia, combina-se o pagamento e vai-se a um hotel buscar mais uns docinhos. Nisso reserva-se R$ 1,7 milhão, em grana viva, para os chantagistas.

Se isso fosse verdade, o presidente de honra do PT teria razão ao chiar. O da República não é pago para tumultuar inquéritos. Os petistas que negociaram com um delinqüente cometeram uma contravenção ao trocar denúncia por dinheiro e um crime ao remunerar bandidos.

Transgrediram as leis da República.

Respeitaram apenas a regra do silêncio de Dom Corleone.

Diante de um crime, o presidente da República não pode agir como advogado de porta de xadrez. (Será que em 1954 os capangas de Gregório Fortunato foram pagos por Carlos Lacerda para atirar no major Rubens Vaz?) Em São Paulo e no Rio houve zonas eleitorais onde madames grisalhas, elegantes e gentis distribuíam narizes de palhaço. (Senhoras parecidas com aquelas que fizeram a Marcha da Família em 1964.) O sujeito ganhava uma bolinha vermelha e ia para a seção eleitoral. No comércio, a bolota de plástico custa R$ 2,50 e a de esponja sai por R$ 3, crime eleitoral explícito, mas isso fica para depois. Contra quem esse feliz palhaço protesta? Paulo Maluf? João Paulo Cunha? Clodovil? Lula? O calor que o senador Eduardo Suplicy tomou de Guilherme Afif Domingos mostra que se quebrou a associação da decência ao PT. Se são todos iguais, Lula é igual a Maluf e Fernando Collor. Exagero? Ouça-se Maluf: “Tenho plena consciência de que o presidente Lula é um homem limpo e correto.” E Lula: “Collor poderá, se quiser, fazer um trabalho excepcional no Senado.” Lula e o PT associaram-se a práticas indecentes. Fizeram isso porque quiseram. A mistura custou o resultado de domingo. A soberba poderá custar a seguinte.

A Justiça Eleitoral precisa estar cega para permitir a distribuição de prendas na área onde é proibido repassar santinhos de candidatos.

Mesmo assim, o palhaço sempre poderá votar com um nariz que trouxe de casa.

Ou Lula pára de dizer monstruosidades, ou verá a marcha dos palhaços .



Escrito por Antonio Alves às 13h58
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Le Monde

Profissão: psiquiatra de moradores de rua

Michel Samson

Nesta terça-feira de verão quentíssima, Vincent Girard, 34, a cabeleira amarrada em rabo-de-cavalo, os olhos azuis e um sorriso de criança, prepara sua turnê semanal. Este psiquiatra "de rua" é acompanhado pelo seu colega Hermann Händlhuber, um austríaco alto e magro de 52 anos que desembarcou em Marselha depois de uma "vagabundagem de oito anos", a qual resultou numa tuberculose. O projeto da organização Médicos do Mundo associa especialistas oficialmente diplomados com benévolos e "trabalhadores pares" cuja experiência de vida é reconhecida como uma competência.

Dentre as 70 pessoas das quais eles acompanham a evolução, as prioridades do dia dependem da "urgência". Pode ser a urgência psiquiátrica, médica e social, quando um jovem rapaz recém-saído das ruas está voltando a mergulhar na bebida e que é preciso encontrar um meio para ajudá-lo dar a volta por cima e retomar seu caminho sobre bases melhores. Pode ser uma urgência somática, quando um dos seus pacientes, que se encontra no ápice dos seus delírios e do seu cansaço, abandonou de tal forma o próprio corpo que é preciso intervir.

Mas a rua tem as suas prioridades que a medicina desconhece. As "visitas em domicílio a pessoas sem domicílio", para retomar uma expressão do médico, nunca acontecem conforme o previsto. Eles partem, portanto, rumo a La Ferme (A Fazenda), um centro de hospedagem situado numa comuna próxima a Aubagne (região marselhesa) onde a equipe havia deixado Sacha, um jovem alemão que acaba de receber um desfibrilador por causa de uma malformação cardíaca. Sacha confessou a Hermann, que fala alemão, inglês, italiano e francês, que ele queria "partir". Ora, cada uma das suas partidas o trouxe de volta para as ruas e perto da morte.

Sacha é um sujeito de grande gabarito, cujo antebraço é tatuado com a inscrição "Elisabeth" em letras góticas e cujos olhos afundados nas órbitas expressam o medo em primeiro lugar. "Medo, medo", repete, mostrando o seu coração, isso porque o seu aparelho cardíaco disparou recentemente sem nenhuma razão. Vincent fala com ele, segurando-o pelo ombro, enquanto Hermann traduz: o aparelho foi consertado, e eles vão prescrever-lhe calmantes, já que ele não consegue mais dormir. Nas costas do médico, Sacha, com o olhar desesperado, finge estar atirando uma bala na têmpora com dois dedos, ou simula seu enforcamento. Depois da visita, Hermann explica: "Sacha quer ir embora dali; os outros são velhos demais, ele não faz nada, e vai acabar morrendo de tédio". Por ocasião da próxima visita, será preciso tentar enviá-lo para um grupo de ajuda mútua onde se encontram ex-pacientes com problemas psiquiátricos.

Agora, a dupla está de volta ao centro de Marselha para procurar Jean-Marie, que normalmente concorda em passar alguns dias no hospital. Vincent Girard reservou-lhe um leito no serviço do doutor Naudin, de quem ele é o assistente. Infelizmente, Jean-Marie sumiu. Um esquizofrênico acometido de delírios expansivos, ele está em apuros. Alguém furtou os cartazes de papelão nos quais ele anuncia por meio de grandes letras coloridas "sessões de cinema em três dimensões", e que ele pendura nos plátanos da Alameda Pierre Puget. Ghil Darsa, uma antiga arquiteta que se tornou enfermeira, que participou da turnê na semana anterior, explica que o furto desses cartazes o "chocou profundamente, uma vez que aquela era a sua maneira de deixar sua marca, de comunicar, de habitar no lugar".



Escrito por Antonio Alves às 14h16
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continuação

          Vincent e Hermann apertam as mãos dos quatro moradores de rua que estão bebendo, sentados num banco da praça, e lhes indagam sobre o paradeiro de Jean-Marie. Um dos quatro aproveita para iniciar uma conversa privada com o psiquiatra. Com o olhar vago, ligeiramente titubeante, Jean-Marc, um homem jovem alto e loiro recém-saído das ruas, puxa Vincent pelo braço. Eles sentam num banco vizinho, e conversam. Pouco depois, Jean-Marc retorna, pega uma sacola de plástico que contém documentos e entra no carro. Finalmente, é ele quem parte para o hospital, no lugar de Jean-Marie que ninguém consegue encontrar. "O álcool acabou comigo; ele acabou comigo", confessa o jovem rapaz. "Eu achava que eu iria sair dessa, mas naquele momento, eu já havia acabado de tomar a minha terceira garrafa de rose; eu tomo os meus medicamentos junto com o álcool; de manhã eu já acordo transpirando; tenho duas folhas de pagamento para receber, mas alguém me roubou minha sacola com os meus documentos; a vida precisa oferecer-me uma outra perspectiva". Vincent lhe responde, sorrindo, que "a recaída é normal" e que o que está acontecendo com ele hoje "é bom para ele".

Esta hospitalização imprevista, explica o médico após tê-lo acompanhado, atende também a uma outra necessidade: "Para nós, é muito importante que as pessoas que nós tiramos das ruas não retornem àquela condição. Para eles, é claro, mas para que nós tenhamos também, de vez em quando, alguns sucessos".

Este retorno ao hospital sublinha, sobretudo, a carência total de locais aptos a receberem os deficientes mentais que moram nas ruas. A equipe vem lutando pela criação de uma casa adequada e já começou a trabalhar num projeto de hospedagem assistida que o plano de coesão social do ministro Jean-Louis Borloo torna teoricamente possível. A enfermeira Ghil Darsa explica: "Em Marselha, não existe nenhum local aberto para as pessoas que não conseguem ser plenamente autônomas, que não têm mais nenhum laço parental e que precisam de ajuda para reconstruírem a sua vida. Acima de tudo, eles não devem permanecer no hospital, que continua sendo útil em tempos de crise".

O próximo encontro do dia é com o "Senhor Betti". Este homem idoso sem dentes e com o corpo escangalhado vive na entrada de um estacionamento. Ele tem um pesado passado psiquiátrico, que ele conta por pedaços mais ou menos coerentes. A equipe vai visitá-lo regularmente, fala com ele, lhe traz água: no cerne desta psiquiatria de rua, o que importa em primeiro lugar é uma presença regular, que pode até mesmo ser muda. Uma presença "que se mostra sem se impor" e se encarrega de acompanhar as pessoas tais como elas são e, sobretudo, com o seu assentimento.

"Dando uma passada, conversando, apertando a mão, é possível criar uma confiança com esses moradores de rua, homens e mulheres, dos quais se sabe, graças aos raros estudos existentes, que um em cada seis é psicótico", explica Vincent Girard.

Todos os especialistas, benévolos e "trabalhadores pares" do projeto de Médicos do Mundo participam da reunião das terças-feiras à noite, durante as quais as equipes trocam suas informações e fazem um levantamento das suas necessidades. Essas necessidades são tão imensas quanto variáveis: "Pode ser ajudar alguém a telefonar para a sua mãe ou um irmão, resolver um problema de orientação e reclassificação profissional, ajudar a encontrar um apartamento mobiliado para o paciente poder se instalar, ou hospitalizá-lo".

Uma hospitalização é sempre complicada, uma vez que os funcionários do hospital relutam muito a aceitar esses doentes, e têm dificuldades até mesmo para entender que eles sofrem de distúrbios psiquiátricos profundos. "Eles são distribuídos por categorias", comenta o psiquiatra. "Ora eles são toxicomaníacos, ora alcoólatras, ora deficientes mentais. Mas, na verdade, eles são "e" alcoólatras, "e" dependentes dos medicamentos "e" bipolares, por exemplo. Isso porque a droga pode ser uma auto-medicação frente a um distúrbio psiquiátrico grave". Além disso, prossegue Vincent Girard, "eles fedem, eles têm piolhos, e os funcionários do hospital não raro temem as contaminações - até mesmo imaginárias".



Escrito por Antonio Alves às 14h15
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continuação

            O Senhor Betti, por sua vez, sofre de todas as moléstias ao mesmo tempo. Já faz algumas semanas, ele enfiou no dedo um anel talismã que corroeu sua carne negra; a sua mão está inchada por um fleimão. Vincent e Raymond Négrel, um enfermeiro especializado em psiquiatria já aposentado, diagnosticam uma infecção que exige uma intervenção cirúrgica imediata. O Senhor Betti a recusa violentamente, grita, conta que naquele hospital "roubaram tudo" o que ele tinha, mistura prováveis elementos de realidade com um delírio repetitivo. Raymond o segura pelo ombro e lhe diz: "O senhor vai morrer caso não for tratado, Senhor Betti".

O médico resolve chamar os bombeiros. Ele detesta isso, uma vez que a filosofia desta psiquiatria da confiança é de nunca obrigar as pessoas. Exceto, é claro, quando existe um sério perigo de morte. O Senhor Betti se afasta, e ainda grita: "Raymond, o que você está fazendo comigo?", mas acaba subindo finalmente, sem mostrar muita resistência, no caminhão vermelho. Ele é levado até o serviço de emergências do hospital geral... de onde ele foge imediatamente! Alcançado pela equipe de rua, o Senhor Betti é finalmente "hospitalizado a pedido de um terceiro", no caso o doutor Girard, no seu serviço de psiquiatria. Lá, ele vai sofrer um tratamento destinado a "torná-lo um pouco mais maleável, sendo sedado com algumas pílulas", antes da intervenção cirúrgica.

Já, no que diz respeito a Omar, ele é "psicótico, abandonado e incurável", diz o médico. Em pé na frente de um banco, curvado, trajando roupas cobertas por uma sujeira espessa, Omar tende vagamente a sua mão negrusca para os passantes que não o vêem. Omar só consegue se movimentar muito lentamente. É uma massa humana apenas viva. Nos seus cabelos, dá para ver os piolhos se mexendo. Ele reconhece Hermann e Vincent. Neste momento, aparece uma breve centelha nos seus olhos apagados. Ele não comeu nada, dorme sem nenhum cobertor, às vezes sobre um papelão, costuma ser assaltado pelos toxicomaníacos na Praça Jean Jaurès, onde ele sobrevive. Mas Omar nada diz, nada quer, não está pedindo mais nada. Ele aceita o cigarro que Hermann enrola para ele, procura num dos seus bolsos internos para ver se ele ainda tem uma moeda. Ele a tira lentamente, ela é amarela.

Vincent Volta a falar com ele em hospitalização; ele balança silenciosamente a cabeça para recusar. Vincent lhe propõe conduzi-lo até a sede de Médicos do Mundo para se lavar. Mesma recusa. Vincent lhe recorda de que um dia ele havia gostado disso. Um fulgor passa nos seus olhos, mas é o mesmo não silencioso. Omar nunca fala. A equipe de despede dele, mais uma vez, e voltará para vê-lo, ainda, sempre.

No carro, Hermann o discreto diz: "Ele não tem nada na mente, nada". E ele acrescenta, com o seu belo sotaque alemão: "É difícil para nós também. A gente traz apenas uma gota de água no oceano, e nem mesmo uma gota".

Uma gota de água na secura do mundo.


Tradução: Jean-Yves de Neufville



Escrito por Antonio Alves às 14h14
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(mais veias abertas)

Salva-vidas de chumbo

 

Eduardo Galeano (*)

 

Montevidéu, agosto/2006 – Nossos países se modernizam. Agora, o discurso oficial manda honrar a dívida (embora seja desonrosa), atrair investimentos (embora sejam indignos) e entrar no mundo (ainda que pela porta de serviço). Na realidade, continuamos acreditando nas histórias de sempre. A América Latina nasceu para obedecer ao mercado mundial, ainda quando este mercado não se chamava assim, e mal ou bem seguimos atados ao dever de obediência.

Esta triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata e seguiu com o açúcar, tabaco, guano, salitre, cobre, estanho, borracha, cacau, banana, café, petróleo. O que nos deixaram esses esplendores? Nos deixaram sem herança nem querência. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas podres, longas caravanas de infelizes condenados á morte precoce, vazios palácios onde perambulam os fantasmas? Agora é a vez da soja transgênica e da celulose. E novamente se repete a história das glórias fugazes, que ao som de suas trombetas nos anunciam longas infelicidades.

****
            O passado será mudo? Nos negamos a ouvir as vozes que nos advertem: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o seqüestro dos bens naturais que Deus, ou o diabo, nos deu, e assim trabalhamos por nossa própria perdição e contribuímos para o extermínio da pouca natureza que resta neste mundo.

Argentina, Brasil e outros países latino-americanos vivem a febre da soja transgênica. Preços tentadores, rendimentos multiplicados. A Argentina é, há algum tempo, o segundo produtor mundial de transgênicos, depois dos Estados Unidos. No Brasil, o governo de Lula executou uma dessas piruetas que fazem pela democracia e disse sim à soja transgênica, embora seu partido tenha dito não durante toda a campanha eleitoral.

Isto é pão para hoje e fome para amanhã, como denunciam alguns sindicatos rurais e organizações ecologistas. Mas já se sabe que os camponeses ignorantes se negam a entender as vantagens do pasto de plástico e da vaca a motor, e que os ecologistas são uns estraga-festas que sempre cospem no assado.



Escrito por Antonio Alves às 12h53
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continuação

            Os defensores dos transgênicos afirmam que não está provado que prejudicam a saúde humana. Em todo caso, tampouco está provado que não a prejudicam. E, se são tão inofensivos, por que os fabricantes de soja transgênica se negam a declarar, nas embalagens, que vendem o que vendem? Ou, por acaso, o rótulo de soja transgênica não seria a melhor publicidade?

Mas há evidências de que essas invenções do doutor Frankenstein afetam a saúde dos solos e reduzem a soberania nacional. Exportamos soja ou exportamos solo? E, por acaso, não ficamos presos nas jaulas da Monsanto e outras grandes empresas de cujas sementes, herbicidas e pesticidas passamos a depender?

Terras que produziam de tudo para o mercado local, agora se consagram a um só produto para a demanda estrangeira. Me desenvolvo para fora, e me esqueço do que tem dentro. O monocultivo é uma prisão, sempre foi, e agora, com os transgênicos, muito mais. A diversidade, por outro lado, libera. A independência se reduz ao hino e à bandeira se não existe soberania alimentar. A autodeterminação começa pela boca. Somente a diversidade produtiva pode nos defender das súbitas quedas de preços que são costume, costume mortal, do mercado mundial.

As imensas áreas destinadas à soja transgência estão arrasando as florestas nativas e expulsando os camponeses pobres. Poucos braços ocupam estas explorações altamente mecanizadas, que, por outro lado, exterminam as pequenas plantações e hortas familiares com os venenos que utilizam. Multiplica-se o êxodo rural para as grandes cidades, onde se supõe que os expulsos vão consumir, se tiverem a sorte, o que antes produziam. É a agrária reforma. A reforma agrária ao contrário.

***

A celulose também entrou na moda, em vários países. O Uruguai, para não ir mais longe, está querendo se converter em um centro mundial de produção de celulose para fornecer matéria-prima barata a distantes fábricas de papel. Trata-se de monoculturas de exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser florestas e se convertem em celulose em um processo industrial que despeja dejetos químicos nos rios e torna o ar irrespirável. Aqui começaram a ser construídas duas fábricas enormes, uma delas já no meio da construção. Depois foi incorporado outro projeto, e se fala de outro e de outro mais, e mais hectares estão sendo destinados à produção de eucaliptos em série.

As grandes multinacionais nos descobriram no mapa e brotaram subitamente cheias de amor por este Uruguai onde não há tecnologia capaz de controlá-las, o Estado lhes concede subsídios e isenção de impostos, os salários são raquíticos e as árvores brotam em um piscar de olhos. Tudo indica que nosso pequeno país não poderá suportar o asfixiante abraço destes grandões. Como costuma ocorrer, as bênçãos da natureza se transformam em maldições da história. Nossos eucaliptos crescem 10 vezes mais rápidos do que os da Finlândia, e isto se traduz da seguinte maneira: as plantações industriais serão 10 vezes mais devastadoras. Ao ritmo de exploração previsto, boa parte do território nacional será espremida até a última gota de água. Os gigantes sedentos vão secar nosso solo e subsolo.

Trágico paradoxo: este foi o único lugar do mundo onde se submeteu a plebiscito a propriedade da água. Por esmagadora maioria, os uruguaios decidiram, em 2004, que a água seria de propriedade pública. Não haverá maneira de evitar este seqüestro da vontade popular?

***

É preciso reconhecer que a celulose se converteu em algo com uma causa patriótica, e a defesa da natureza não desperta entusiasmo. E pior: em nosso país, doente de celulite, algumas palavras que não eram más palavras, como ecologista e ambientalista, estão se transformando em insultos que crucificam os inimigos do progresso e os sabotadores do trabalho. Comemora-se a desgraça como se fosse uma boa notícia. Mais vale morrer de contaminação do que morrer de fome: muitos desempregados acreditam que não há mais remédio a não ser escolher entre duas calamidades, e os vendedores de ilusões desembarcam oferecendo milhares e milhares de empregos.

Mas uma coisa é a publicidade, e outra a realidade. O MST, o movimento de camponeses sem-terra divulgou dados eloqüentes, que não valem apenas para o Brasil: a celulose gera um emprego para cada 185 hectares, enquanto a agricultura familiar cria cinco postos de trabalho para cada 10 hectares. As empresas prometem o melhor. Trabalho em abundância, investimentos milionários, controles rígidos, ar puro, água limpa, terra intacta. E é o caso de se perguntar por que não instalam estas maravilhas em Punta del Este, para melhorar a qualidade de vida e estimular o turismo em nosso principal balneário?


(*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina e Memórias do Fogo.



Escrito por Antonio Alves às 12h53
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Talvez o texto do anexo seja interessante para substituir a entrevista com Marcola lá na coisa em si.  No Brasil também tem muitas Estamiras.
(Marisa Fontana)
 

CONTARDO CALLIGARIS


Estamira e "Transamérica"

 

Odiamos o outro não por ele ser diferente,

mas para ignorar que ele é parecido conosco


         DURANTE QUATRO anos, Marcos Prado escutou Estamira, uma senhora de mais de 60 anos que vivia entre seu barraco (habitado e cuidado com a dignidade devida a uma casa) e seu lugar de trabalho (um aterro de lixo, onde ela passava dias e noites a fio).

Dessa experiência, Prado fez um filme, "Estamira", que é um extraordinário documento sobre a humanidade da loucura. Ele nos apresenta o território de Estamira (o mundo físico pelo qual ela anda), suas relações (de família e de amizade) e seu mundo íntimo, ou seja, o sentido que ela atribui ao seu ser.
Alguns psicólogos reconhecerão nessa tríade (mundo físico, relações e intimidade) as três categorias da psicologia existencial de Ludwig Binswanger. Pensei em Binswanger e na generosidade de sua clínica e de seu pensamento quando, comentando o filme, uma amiga e colega me disse: "Estamira é delirante, mas suas palavras, poéticas, fantásticas ou brutais, são coisas que ela diz não porque é psicótica, mas porque é ela, Estamira".

Que falemos lugares-comuns (como a maioria dos neuróticos) ou expressemos curiosas visões do mundo (como quem parece delirar), de qualquer forma, não há quadro clínico que possa (e deva) anular a unicidade de nossa presença no mundo, a dignidade do que se chamava, tempo atrás, nossa "pessoa". Marcos Prado permitiu que Estamira lhe (e nos) falasse porque quis e soube escutá-la como se escuta, em princípio, um semelhante. Com isso, o filme é absolutamente imperdível para quem, "psi" ou não, esteja disposto a se aproximar da loucura, ou melhor, a descobrir que o "louco" é estranhamente próximo da gente.

A cosmologia de Estamira (o além, o além do além, o mundo abarrotado que transborda) e sua religião (uma briga constante com Deus e com o Trocadilho, face diabólica e maldita do mesmo) não são menos verossímeis do que muitas de nossas crenças. A diferença é que nossas crenças são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria.

Estamira (esse talvez seja o drama fundamental da loucura) deve inventar sozinha os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela consegue essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê.
O Trocadilho, ao persegui-la, lhe deu uma missão, que é (como esperar outra coisa de um deus com esse nome?) um jogo de palavras: Estamira é esta mira, o olhar que tudo vê e tudo deve revelar. Missão cumprida, graças a Marcos Prado.
Corolário: quem não acredita na reforma psiquiátrica veja o filme e se pergunte: será que nossa sociedade pode tolerar a loucura só na margem extrema (o além do além) do lixão ou na clausura dos hospícios?

Quero mencionar um outro filme, antes que saia de cartaz. "Transamérica", de Duncan Tucker, é uma ficção e, à primeira vista, pouco tem a ver com "Estamira". Salvo que ambos os filmes nos forçam a descobrir destinos e jeitos de estar no mundo que são, no melhor dos casos, objetos de nossos olhares compassivos ou, mais freqüentemente, de exclusão, zombaria e ódio. O ódio, nesses casos, é o índice de uma cegueira proposital: odiamos o outro não por ele ser diferente de nós, mas para poder ignorar que ele é parecido conosco.
O herói (ou a heroína) de "Transamérica" é um transexual que, na hora em que obtém, enfim, o direito de ser operado e mudar de gênero, descobre que é pai de um filho adolescente. Difícil assistir ao filme sem entender de vez o seguinte: o drama de quem vive num corpo que lhe parece estrangeiro (por ser de um gênero no qual ele não se reconhece) tem pouco a ver com os avatares do desejo sexual. É um drama de identidade.

Algumas leituras para a fila do cinema. A Martins Fontes publica os seminários de Michel Foucault: no ano passado, "Os Anormais" e, neste ano, "O Poder Psiquiátrico". O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos acaba de publicar "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade, Pesquisa na Nona Parada do Orgulho GLBT São Paulo 2005", de Carrara, Ramos, Simões e Facchini. A pesquisa confirma que, em matéria de discriminação, o transexual, que discorda de seu próprio gênero, é a vítima preferida.

É difícil abandonar o conforto da crença de que nós somos os "normais". Mais difícil ainda é admitir que a anatomia de nosso corpo possa não bastar para nos dar a certeza de que somos homem ou mulher.



Escrito por Antonio Alves às 14h02
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se non è vero...

N.N. mandou e-mail da Itália com título "isso aqui é um pouquinho de Brasil", com o texto que publico logo abaixo e faz o segunte comentário:

Antonio. Me mandaram essa entrevista: é verdadeira?! Em todo caso espanta, pela crueza (se diz?). acho que ficaria boa entre os artigos, em época de eleição. Nn pax et bonum abs

Bem, se é verdadeira, não sei. É verossímil. E diz coisas incontestáveis, e isso espanta mais que a crueza. Dá-lhe Brasil!

O Globo -  Você é do PCC?

Marcola - Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

 

O Globo - Mas... a solução seria...

Marcola - Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país.

Ou seja: é impossível. Não há solução.

 

O Globo - Você não têm medo de morrer?

Marcola - Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês Não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.



Escrito por Antonio Alves às 18h04
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continuação

O Globo - O que mudou nas periferias?

Marcola - Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

 

O Globo - Mas o que devemos fazer?

Marcola - Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha",daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?

 

O Globo - Mas... não haveria solução?

Marcola - Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças.



Escrito por Antonio Alves às 17h49
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abrindo a conversa

O governo Binho

 

            As mensagens seguintes são anotações feitas em duas reuniões, onde as pessoas foram convidadas a falar sobre as características desejáveis para o próximo governo do Acre, liderado pelo Binho Marques. Fiz apenas uma breve revisão para retirar excessos e repetições. As anotações foram feitas pelo Irailton Lima.

            Atenção. Os textos não foram revisados pelos autores, são apenas anotações feitas enquanto as pessoas falavam. Estão, assim, sujeitas a erros e imprecisões. Servem para abrir a conversa, nos fazer refletir sobre algumas questões, mas não são posições a ser defendidas ou criticadas. Portanto, peço aos que comentarem levem isso em consideração e que sejam, também, simples e livres para que a conversa possa fluir agregando idéias interessantes e positivas.

            A pergunta á: quais os valores, idéias, pressupostos, que devem nortear o próximo governo do Acre?



Escrito por Antonio Alves às 16h50
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Primeira reunião - quinta-feira, 27/04/2006

Pressupostos político-filosóficos do novo Governo

 

Roney - É preciso consolidar o Desenvolvimento Sustentável. Uma parte foi feita até aqui. Agora é hora de consolidar.

 

Denise - A sensação que se tem é que será um Governo que poderá trabalhar PROCESSOS. O difícil é que as pessoas ficam ansiosas por resultados práticos. Vai ser preciso demonstrar que o processo gera resultado consistente, mesmo não sendo resultado MEGA.

 

Rego - O principal papel do gov Binho é reconstituir a nossa utopia; não basta falarmos em Des. Sustentável. Ele tem muitas nuances; de muitas formas o desenv pode ser sustentável. O gov Binho deve situar o lugar do homem no nosso desenvolvimento. Ele deve responder: no que faz, em que promove o homem, as pessoas? Deve promover o homem acreano, na sua condição de membro de um universo cultural próprio. Deve ser capaz de trabalhar para esse homem que tem identidade própria. Nossa sustentabilidade deve perceber isso – a relatividade da condição humana.

 

Léo - Deve ser um Governo que perceba a necessidade de promover bem estar, com cultura p. ex., ao invés de concentrar recursos em medidas de segurança (presídios...). Deve ser capaz de reconhecer as competências das pessoas. Devemos passar do Governo da floresta para o estado da floresta. Num primeiro momento, trabalhamos Governo da floresta, economia da floresta e sociedade da floresta. Cada um evoluiu diferente. O desafio é o despertar da sociedade da floresta. Deve ser um Governo de criação e criatividade. Dos opostos que se cruzam e buscam gerar soluções. Deve ser um Governo jovem – por promover o protagonismo jovem, etc. Para isso, é preciso rever nossa política de comunicação. A comunicação do Governo, p. ex., nega ritmos – ritmos são exemplos do poder criador. A periferia cria ritmos que não são os da intelectualidade. O Governo deve ser de todo mundo. 600 mil governadores. É preciso despertar o poder criativo da juventude. A capacidade de ousar. A escola deve ser uma casa comum, em que a comunidade esteja dentro dela. Deve ser um centro da juventude. O jovem deve ir para ela sem temor, porque é respeitado na sua forma de ser.

 

Raimunda - “É preciso ter uma nova concepção de exercício do poder. Precisa ter participação e concertação constante no processo de governar. Hoje se leva o processo de Governo a ferro e fogo. Já nem consegue levar em conta as necessidades das pessoas. Espera-se que Binho não mude sua concepção de poder. Porque o poder muda as pessoas. Outra coisa a considerar: não vamos nos perpetuar no poder. Por isso, se no GJV houve melhorias, elas não são políticas públicas consolidadas. As melhorias para os pobres, p. ex., são melhorias de Governo, não permanentes. É preciso promover educação e crescimento da consciência política das pessoas como cidadãs, para que elas tenham como opinar e participar na gestão do Governo.

 

Toinho - Nossos processos mentais – princip quando a gente pensa instituições – nos levam a certos padrões já incorporados. Muitas vezes os programas, as soluções que sugerimos, são como o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Nós estamos diante de um problema muito maior do que visualizamos. Por ex., nessa campanha vamos ter que nos desviar dos pedaços da conjuntura nacional, por conta das lambanças do pessoal de BSB. Se olharmos, o próximo verão... sofro só de lembrar o verão passado. Nunca vi um verão tão seco. Diz-se que o próximo será ainda pior. Estamos diante de um quadro bastante complexo, de mudanças, rupturas do tecido social e natural, da realidade... Como vamos equacionar essas coisas? Um Governo pode fazer muito pouco. Mesmo assim, primeiro: deve criar possibilidades de resistir, ambientes, espaços de resistência às graves mudanças no planeta. Depois, ampliar os espaços de participação, de presença das pessoas no Governo. É preciso acabar com essa separação entre centro e periferia. A TV Aldeia faz estética bonitinha, bossa nova, e não ouve a periferia. No passado, via-se que se não mexesse no HOSMAC, pousada e presídio, seria Governo fracassado. Somente agora está sendo feito alguma coisa. O Binho acha que será o Governo da política social. BID é produção. BNDES é infra. BIRD será do investimento na política social. Isso não é suficiente. O próximo Governo deve trabalhar na mudança de mentalidade das pessoas, na formação – não na escolarização apenas. As soluções que estão sendo geradas não resolvem. Na floresta, por exemplo, tem-se dificuldade de migrar da engenharia florestal para a antropologia – quem dera para a psicologia! São necessários: 1. O novo Governo deve ser menos show – deve aparecer menos. As pessoas, a sociedade é que deve aparecer. 2. O novo Governo deve ser capaz de amar os inimigos, de dialogar com quem não está gostando, de sentar à mesa, de perceber as razões das pessoas... isso significa uma inversão na hierarquia. O governador deve ser o servidor público número um. Deve ser um Governo de servir. E isso deve vir do coração. 3. No acre só tem Governo. É preciso criar uma agenda de compromissos. P. ex., a Assoc Comercial deve se reunir e assumir um compromisso com o Governo e a sociedade (atender bem, não enganar o cliente, etc...). Os professores devem se reunir e dizer... os pais dos alunos... Devemos reunir as pessoas para que elas digam o que vão dar – não só o que querem/precisam... daqui por diante deve-se focar nesse tipo de formulação, para fazer as inversões – da democracia, da hierarquia, do poder.

Escrito por Antonio Alves às 16h41
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Marcos Afonso - Faz tempo que deixamos de conversar. Isso é muito ruim. A sociedade acreana está esquizofrênica. Ela se sente com auto-estima maior, mais localizada, mas está distante... isso pode ser um paradoxo. Na periferia, as pessoas valorizam outras coisas. O contato pessoal, visual. Elas podem até gostar (do Governo) mas não querem se envolver... podem votar em outro porque conhecem mais a ele. É mesmo preciso resgatar nossa utopia. Resgatar a radicalidade democrática. Esse é o momento de dar um salto nisso. Precisamos universalizar a cidadania. A cidadania deve ser completa. Não podemos nos contentar com duas políticas, que a sociedade já cobra. Nosso partido gasta uma energia imensa com ele mesmo. Agora, mais ainda, para consertar as bobagens. Em boa medida, não evoluímos no exercício da democracia. Falando sobre a juventude, ela está desencantada com o PT. Para ela, é tudo igual. Em resumo, qual é a direção que vamos dar? Ou, o que vamos ressuscitar dentro de nós? Precisamos nos encantar novamente. Porque se não, não teremos capacidade de encantar os outros. Devemos dizer às pessoas que elas vão governar. Como dizer isso a elas? É preciso usar a linguagem correta.

 

Denise - Estamos passando por processo de mudança muito forte, que terá impacto nos próximos quatro anos – inclusive cultural. As mudanças econômicas, globais, impactam inclusive as periferias. A juventude tem muito disso. Não pode mais ser só Governo. E isso tem que ser trabalhado para a juventude, urbana e rural. E preciso fazer pensar, fazer com que eles tragam novas idéias. Isso foi sempre difícil de fazer nas campanhas. Não podemos esquecer as vozes femininas.

 

Rego - A nossa continuidade deve ser a continuidade da mudança. Na democracia, de quatro em quatro anos a sociedade conversa sobre sua situação. Muitas vezes, porém, o discurso mais significativo é o silencio. Nesses momentos, nosso ideário volta à tona. Na ação de Governo, ele meio que se desvanece. O poder transforma as pessoas. A estrutura o aprisiona. O lugar do homem no nosso desenvolv significa transitar para o Governo do povo da floresta. Deve trabalhar a liberdade de ser, não apenas de ter. O desenvolvimento sustentável deve ser “progresso de liberdade”, qualquer Governo que pense desenv deve levar isso em conta. Deve pensar a floresta, investir no homem, eliminar as privações dele, significa oferecer educação, saúde, arte, alimento. O Governo do Binho deve ser um Governo de criação da liberdade, nesse sentido. A economia deve ser para isso. Ela deve estar, como tem que ser, a serviço da liberdade do homem. A produção material tem que estar a serviço disso. E deve centrar-se na família.  Nosso Governo atual tem um desvio de rota em relação ao projeto original. A liberdade é sobretudo cultural, definida nos limites da cultura de cada um. Nosso desafio é criar as condições para termos a liberdade de sermos como nossa cultura nos indica. Precisamos superar o super-poder do Estado, a armadura do Estado. Lá atrás pensamos que o Governo deve ser permeável. É preciso diminuir a distancia entre a sociedade e o Governo. Existem boas experiências sobre isso. É preciso ir para alem dos mecanismos da democracia representativa. O plano de Governo, p. ex., não deve ser lançado. Deve ser construído na campanha, em cada reunião, comício; deve estar aberto ao longo dos quatro anos.

 

Carlos Franco - O plano deve ter mistura do técnico com o coração. Deve considerar as diferenças das pessoas derivadas das suas experiências, interesses, condição profissional, social... O atual Governo é um Governo estruturante. Como quem compra o carro. Agora precisa da manutenção e gasolina. Em todos os setores. Agora é hora de dinamizar as áreas.

 

Dande - Estamos falando de um Governo que é nosso. Estamos falando de nós mesmos. É bom que se esteja falando do espírito do Governo Binho. Para isso, é preciso olhar para o que está acontecendo no mundo. Em muitas áreas o mundo tem muito a nos ensinar. Às vezes fazemos mal a transição do local para o global. Deve-se compreender o mundo em seus diversos recortes, também do pt de vista espiritual. E preciso estar aberto para olhar as coisas, fazer “diagnóstico” da realidade, ver o que mudou. Com isso, fazer as análises necessárias. De forma que todos entendam as mudanças ocorridas. Com isso, vamos tirar lições. Aprender com os resultados e com a maneira de gerar, extrair esses resultados. É fundamental, ainda, re-significar as coisas: desenvolvim, família... Ver como as pessoas estão vendo isso, como dar novo valor, significado a elas. Se foi estruturante, era porque precisava ser. Mas, agora, é preciso saber quais são os valores que estão nas pessoas. O que é desenvolver o Acre? Se é para criar estruturas para reproduzir ou intensificar consumos e valores (como os de São Paulo) é isso? Quais são os valores a serem (trabalhados). É preciso enxergar os valores da juventude e trabalhar com ela. Isso passa pela educação, mas não essa educação escolar tradicional. Precisa-se considerar a educação na perspectiva da educação ecológica (Capra). A saúde não deve ser compreendida como hospital e remédio para as pessoas. O pressuposto deve ser o da prevenção. Governo participativo já está desgastado. Podemos começar a falar em governança, que é mais que participativo. A Marina deve ser o paradigma de governança, de participação. Deve ser a referência de construção coletiva.

Escrito por Antonio Alves às 16h40
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